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8 de novembro de 2011

Opinião pura e dura, de economista, como se diz num comentário, mas que tem de ser tida em linha de conta ...

Ao fim, tem um quadro com as horas trabalhadas no sector público e privado nos países da OCDE. Não consegui transcrever bem o texto, pelo que aqui só vai o seu esqueleto: recomendo a leitura integral.

As fortes reacções à redução, prevista na proposta de OE para 2012, na massa salarial da função pública não devem passar despercebidas. O tema merece atenção e deve ser debatido sem enviesamentos emocionais ou interesseiros. O que está em causa é muito importante. Se isto não for bem entendido e considerado, a pretexto de garantir a equidade nos sacrifícios, podem repetir-se erros graves semelhantes aos do passado recente. Tentar equilibrar os cortes salariais nos sectores públicos e privado, pode conduzir-nos a uma armadilha perigosa: prejudicar a reorientação da economia para um modelo mais produtivo e eficiente. A proposta de concentrar os cortes no sector público, poupando os trabalhadores do sector privado, tem fortes fundamentos económicos e deve ser implementada sem hesitações ou correcções que a desnaturem.São três as razões que fundamentam esta opção. Todas elas militam em favor do que deve ser agora o principal desígnio dos decisores políticos: o aumento da capacidade de crescimento do país. 
Primeiro: compensar o deficit de tempo de trabalho no sector público
[....]
Segundo: aumentar o excedente económico apropriado pelo sector privado
[....]
Terceiro: sustentar a oferta de trabalho e a competitividade do país
[....]
Advertências:
1. A análise aqui desenvolvida não envolve julgamentos morais sobre os servidores públicos. 2. O facto de serem funcionários públicos – e defrontarem um corte de 25% dos seus rendimentos anuais - impede demasiados de enxergar e afirmar o acerto económico da redução autónoma dos salários no sector público. Não deveria ser assim e, sendo funcionário público, não é o meu caso.

14 de julho de 2011

Para quem esteja interessado


"The OECD have released the latest edition of their comprehensive 'Government at a Glance' report, which compares the structure and effectiveness of governance in the OECD across a range of areas, from public procurement to e-government and transparency. This post and the accompanying infographics look at government employment, compensation, and hours worked in European members of the OECD."

  
Clicar para aceder a uma versão maior

28 de março de 2011

Estado

É um dossiê do The Economist sobre o futuro do Estado e da Administração Pública. Consegui fazer o "download" gratuito do mesmo. Abaixo alguns excertos da primeira peça daquele - a única que li até agora - para suscitar a leitura. Os sublinhados são meus.


"[Em Xangai] Over the past five years Ms Ma has paid out 400m yuan ($57m) to the NGOs for social work, mainly to do with the elderly. The groups are evaluated by third parties on things like their corporate governance: the higher their rating, the more money she trusts them with. She provides training in social work and tax advice. She would like donations to more NGOs to be tax-deductible, as in the West."


"[....]




"[....] Nor is it just spineless politicians who are at fault. A lot of economic theorists have predicted an ever larger state since Adolph Wagner linked its growth to industrialisation in the 19th century. The Baumol cost effect is often cited. In the 1960s William Baumol and William Bowen used the example of classical music to show that some activities are not susceptible to improvements in labour productivity. [....] Larry Summers [....] argues that the goods governments buy, especially health care and education, have proved much more resistant to productivity enhancements than the rest of the economy. [and ....] expects that trend to continue. An ageing population will need ever more health services provided by the state. Better education means longer school years, smaller classes and more after-school activities, all of which cost more. Greater inequality will mean greater redistribution [....] The pressure to spend more is continuous [....]

[....] This special report takes a more optimistic view. To start with, it is not inevitable that spending will keep on going up. Countries such as Canada and Sweden have reduced public spending when they had to. Moreover, some governments are massively more efficient than others, and there are huge gains to be achieved merely by bad governments copying what good governments do—such as planning ahead, backing winners and rewarding people for doing the right thing. With a smaller central core and much more competition for the provision of services, most governments could do the same for much less.

On a personal level, the state matters because it has a big impact on people’s lives. As Geoff Mulgan observes in his excellent book on the state, “Good and Bad Power”, the quality of the state you live in will do more to determine your well-being than natural resources, culture or religion. In the surveys that measure people’s happiness, decent government is as important as education, income and health (all of which are themselves dependent on government). 

To business, government can make an enormous difference. Most obviously, if the state accounts for half the economy then improving any part of that will create better conditions for growth. Even if government were to cost the same but produce more (better-educated workers, decent health care, roads without holes, simpler regulation), the effect on private-sector productivity would be electric."
 

17 de fevereiro de 2010

"Benchmarking"

Ora bem: se lerem isto, não perdem o seu tempo: é uma análise do sistema político irlandês à luz dos desafios colocados pela crise: veja as diferenças e as semelhanças. Recomendo vivamente.

Começo por uma citação, e depois pelo abstract da análise.

Citação:

"We need a political system that encourages strategic thinking"
 Michael O'Sullivan, Irish Times, 14 April 2009. Pois!

Abstract: 

The Impact of the Crisis on the Irish Political System Niamh Hardiman

"The international financial crisis manifests itself in Ireland not only as a crisis of the banking system, but also as a major fiscal crisis, aggravated by years of soft revenue policy and a housing bubble that has burst spectacularly. The severe drop in economic output results in a crisis of employment and a definitive end to the ‘Celtic Tiger’ era of rapid growth and nearfull employment. Although the political system has proven resilient thus far, with membership of the Euro preventing the catastrophic political crises that affected Latvia and Iceland, for example, the crisis has revealed significant weaknesses in political system. This paper considers institutional shortcomings in three arenas through which policies to deal with the crisis must be managed: the parliamentary system, the public administration, and social partnership structures."

23 de janeiro de 2010

Por favor, tomem nota! [Nota: Esta exortação deve ser lida em voz alta em tom enfastiado]

"The invention of movable type led to a paradigm shift in communication. It was the midwife of the modern world. At the time, however, it seemed merely that monks would have to find things other than copying biblical texts to do with their days. The internet has always been different. Almost from its inception, trying to gauge where the world wide web might take us has been a major preoccupation of commerce, not least the newspaper industry. 

The government, equally, has pondered how it might be used. Predictably, its first instinct was simply to use it to do what it was already doing but a bit more quickly. But this week it dramatically raised its game, with the launch of new website, data.gov.uk, which has met with a warm reception. It puts into the public domain every bit of information collected by public bodies that is not personal or sensitive, from alcohol-attributable mortality to years of life lost through TB. Happily, not all the data sets deal with death. 

Even a generation ago most of the vast amount of data collected by government was unavailable, and some of it – such as the location of the Post Office tower – was classified as an ­official secret. At the very least this amounts to agenuine ­culture change in what has always been a deeply ­conservative ­bureaucracy. At its most ­powerful, it could transform the nature of power."  

Continuar a ler em Government information: Creative commons | Comment is free | The Guardian

18 de novembro de 2009

Reivindicações intempestivas

Causa Nossa: "Os outros que paguem a crise [Publicado por Vital Moreira] «Frente Sindical quer aumento salarial de 2,5% em 2010». Os funcionários públicos tiveram um aumento real de remunerações de cerca de 5% no corrente ano (o que deve ser um record nacional), mercê da imprudente aumento de 3% e da deflação de quase 2% no custo de vida. Agora querem mais 2,5%, com a inerente sobrecarga orçamental. Tendo em conta o aumento exponencial do défice orçamental (que deve superar os 7%), por causa da crise, e a necessidade de contenção da despesa pública, é caso para dizer que os sindicatos da função pública acham que os seus interesses privativos devem prevalecer contra tudo o resto..."

O argumento sindical mais forte invoca a perda de poder de compra dos ordenados da FP ao longo dos anos. Admitindo a bondade do argumento, e esquecendo que a oferta de bens públicos e semi-públicos é cara no país devido à ineficiência e falta de produtividade, e não olhando para a discussão da questão em outros países europeus (na Irlanda discute-se a diminuição dos salários nominais dos funcionários públicos), a reivindicação é completamente intempestiva face à situação económica do país que é particularmente grave.

Os sindicatos da FP deveriam manifestar-se, e fazer greve, e denunciar o que está mal (por exemplo, situações de corrupção e de desperdício) e o que deveria ser feito para melhorar o funcionamento da Administração Pública porque assim exige o interesse dos seus associados - sem ganhos de eficiência e de produtividade, não pode haver melhorias salariais além da reposição do poder de compra perdido pela inflação (e nesta conjuntura, enfim...).

3 de novembro de 2009

Reforma da Administração Pública: o que os outros propõem e discutem



O The Irish Economy » Blog Archive » The Future of the Public Sector recomeda a leitura dos dois artigos referidos abaixo, que incidem sobre o assunto em epígrafe, e eu concorro na recomendação. O primeiro deles, refere-se ao caso Irlandês, e são propostas de como aquela reforma deveria ser concretizada - o que aí é proposto provocaria apoplexia a muita gente em Portugal, caso fosse sugerido a sua aplicabilidade ao nosso caso:

19 de outubro de 2009

Classificação das escolas a partir das notas dos alunos

Diz o Canhoto: Rankings, escolhas e selectividade Rankings, escolhas e selectividade 1. [ler o resto dos argumentos no seu apontamento] Classificar as escolas (rankings) a partir das notas dos seus alunos constitui exercício intelectualmente desonesto [...].

Qualificaria o meu acordo com a nota do Canhoto com dois reparos: em primeiro lugar, reescreveria aquilo que se diz acima do seguinte modo: " Avaliar as escolas (rankings) a partir das notas dos seus alunos constitui exercício intelectualmente desonesto"; em segundo lugar, a avaliação dos resultados educativos em Portugal peca por ser deficiente, e muito deficiente, no que respeita à sua caracterização estatística. Digo isto, porque a discussão não incide na necessidade daqueles resultados serem complementados com mais informação estatística, mas na inoportunidade e na incorrecção de serem divulgados, quando as notas dos alunos devem ser um dos elementos imprescindíveis daquela avaliação.

Tudo precisa de ser avaliado em Democracia, e para que essa avaliação seja adequada, transparente, e eficaz, é necessário que seja sustentada por abundante, diversificada e ampla informação estatística. Um dos problemas graves da actividade do Estado em Portugal, é que ela não se quantifica bem. A esse propósito, uma pequena história:

"Quando entrei para a Direcção Geral da Administração Pública, por volta de 1987, uma das coisas que me foi dita, para minha grande perplexidade, é que a Administração Pública não conseguia saber com exactidão o número dos funcionários públicos existentes em Portugal, apesar do esforço continuado e anual daquela Direcção Geral. Há alguns anos a esta parte, soube pela comunicação social que o problema não estaria ainda resolvido, a contrario, aliás, do que se passava, e passava muito bem, na Administração Pública Regional dos Açores." A minha perplexidade continua, mas tenho as minhas conjecturas sobre o motivo - um destes dias volto ao assunto.

18 de outubro de 2009

Autarquias: o que os outros fazem

"George Boyne, Professor of Public Sector Management at Cardiff University, who conducted the research along with Oliver James, Peter John and Nicolai Petrovsky said: "This is a good news story for local government. It shows that local works, with poor leading to change in political leadership and management. That's what is supposed to happen."

Introduced in 2002 and described by the researchers as 'a highly visible and publicised performance rating that is taken seriously by central government and by local politicians', the CPA rates councils on a scale of stars from zero (poor) to four (excellent).They found that if a council were rated at zero or one star, the ruling party would lose three per cent in electoral support. Declining by a star would cost two points. There was, though, no benefit from running an authority rated at three or four stars.

 Professor Boyne said this 'negativity bias' reflected the greater likelihood of bad news being widely broadcast. He added: "The main aim of introducing this system was to raise the performance of the poorest authorities. So the government will feel that it has succeeded in this respect.[...]"

The researchers measured election results and managerial change in upper-tier councils over a six-year-period (2001-7) against their ratings under the Audit Commission's Comprehensive Performance Assessment (CPA).

4 de outubro de 2009

Sobre mercados e gestão pública

Três apontamentos, para memória futura, cada um deles o mais interessante. O conteúdo dos dois primeiros é inesperado, mas não trivial, e tem ver com o mercado: como as pessoas convivem com ele, e a sua efectiva extensão nos dias que correm. O terceiro fala-nos da deficência da gestão pública em efectivar, em implementar de modo eficaz e eficiente, as políticas do Estado (pois!):
  •  Who’s afraid of the big, bad market?  - "Over at Wronging Rights, Amanda asks “Why do so many people respond so negatively to the idea of markets?“: I don’t think it’s an actual discomfort with exchanging goods or services for money. We all engage in market transactions all the time, every day. Markets are where we get everything from our toothpaste to our cheesy Richard Curtis movies, but I don’t think many people feel oppressed or exploited every time they buy a tube of Colgate Total. I wouldn’t dismiss discomfort. Impersonal, non-cooperative markets are a recent invention. Even 50 years ago, most of Western intelligentsia doubted the batty-sounding system could work. Fifty years later, most of us believe in markets only because we see the wreckage of other systems each time we lean close to the precipice ourselves. Liberal ideology helps us rationalize the rest. [...]"


20 de outubro de 2008

Uma da Administração Bush

Hoje, já tinha prometido não fazer a entrada de mais notas, mas existem algumas incontornáveis: esta, por exemplo, Economist's View: "The Best Way to Help the Unemployed".
Do que trata: do modelo mais eficaz e eficiente de gerir nos EUA o processo de arranjar colocação para os desempregados. O assunto foi estudado; a conclusão é a do sistema introduzido aquando do New Deal ser o mais adequado; isso contraria a posição da Administração Bush que favorece o outsourcing desse trabalho para empresas privadas de âmbito local. Implicação: a publicação dos estudos aconteceu 4 anos depois e não mereceu publicidade.

15 de maio de 2008

Sobre a DGCI

Vital Moreira manifesta aqui, em Causa Nossa, a sua concordância com um texto do blogue Jumento (ver aqui), sobre a eficácia da DGCI na cobrança das dívidas fiscais e quanto à actuação do novo Secretário de Estado. O texto em causa merece ser lido - vai de encontro a uma das minhas irritações cívicas: os consensos, tempestivos, depreciativos, que se formam no país, em certos círculos, nos "opinion makers", sobre os ganhos de eficácia (recentes) da administração pública nas suas tarefas de regulação.
Aditamento
Nem a-propósito: lido também no mesmo blogue (aqui) uma nota sob a epígrafe de iniquidade fiscal.
Aditamento (2)
Alguém que me tem vindo a irritar, (civica) e ultimamente, tem sido o Paulo Portas: pelos vistos também irrita o Vital Moreira, e pelos mesmos motivos (ver aqui a primeira de um conjunto de notas sobre o senhor).

9 de abril de 2008

O peso e a importância das "instituições"

Aqui, também, existe um traço comum entre os artigos referenciados - são questões sobre a importância das instituições para o desenvolvimento (no sentido em que o conceito de "instituição" é entendido pelos economistas - ver aqui, por exemplo) . O primeiro, do Economist.com, faz o ponto da discussão sobre o conceito da soberania e o cumprimento da lei e sobre os mecanismos, pelos quais, a existência (ou a ausência) dessa "instituição" transmite os seus efeitos, condiciona as possibilidades de sucesso do crescimento e desenvolvimento sócio-económico dos países; o segundo, do Diário Económico, de João Santos Lucas, aborda a questão da governança em Portugal e daquilo que é necessário fazer para assegurá-la - naturalmente, como fazê-lo depois é onde reside todo o busílis do trabalho político. Matéria de reflexão.

  • Economics and the rule of law Order in the jungle Economist.com
    "Thick definitions treat the rule of law as the core of a just society. In this version, the concept is inextricably linked to liberty and democracy. Its adherents say a country can be spoken of as being ruled by law only if the state's power is constrained and if basic freedoms, such as those of speech and association, are guaranteed. The “declaration of Delhi” drawn up by the International Commission of Jurists in that city in 1959 followed this line in saying that the rule of law “should be employed to safeguard and advance the civil and political rights of the individual” and create “conditions under which his legitimate aspirations and dignity may be realised.”
    Among other proponents of a thick definition are Friedrich Hayek, an Austrian economist, and Cass Sunstein of the University of Chicago. In their view, the rule of law includes elements of political morality. One account of growth—associated with Douglass North of Washington University in St Louis, Missouri—is “institutional”. It focuses on the importance of property rights, transaction costs and economic organisation. On this view, stable, predictable laws encourage investment and growth. Thin definitions of the rule of law fit this well. The other—associated with Amartya Sen of Harvard—says that if you expand people's “capabilities” (Mr Sen's term), they will do things that help countries grow rich. Freeing people to take advantage of their capabilities usually means lifting the oppressive burden of the state and guaranteeing certain basic rights—a much thicker concept.
    But as a generalisation, the efforts of the past few years have thrown up mixed messages. They suggest the rule of law can be improved sharply; that rule-of-law reform is at root a political not a technical undertaking; and that it is linked to growth, if weakly in the short term. But they do not really bear out the assertion that the rule of law is an underlying prerequisite for growth. Rather, the more economists find out about the rule of law, the more desirable it seems—and the more problematic as a universal economic guide."






  • Governação dinâmica - DiarioEconomico.com
    "As forças do mercado são a pedra de toque duma economia eficiente. Mas o desempenho económico do país é fortemente determinado pela qualidade da governação e das instituições públicas que apoiam o mercado. O deficiente funcionamento das instituições do sector público é um efectivo constrangimento ao crescimento. Daniel Kaufman, director da ‘Global Governance’ do Banco Mundial, considera que os países que melhoram a eficácia da sua governação, no longo prazo, triplicam o nível de vida da sua população em termos de rendimento ‘per capita’.
    O que falta então em Portugal para alcançar este desiderato? Bastará adoptar “boas práticas” de governação? Num ambiente de mudança permanente, não basta. Porque há boas práticas que simplesmente se tornaram disfuncionais e deixaram de ser as melhores direcções para o futuro. O Estado, para ser relevante e eficaz, tem de ser dinâmico, hoje mais do que nunca. A governação exige adaptação dinâmica e mudança inovadora. Não apenas ao nível do Governo e da Assembleia da República mas também ao nível do conjunto das instituições públicas. Necessário que se publique legislação inovadora. Mas é insuficiente.
    Quer a incipiência de uma cultura institucional de apoio à mudança quer a razoável ausência de capacidades organizacionais proactivas na administração pública constituem os mais poderosos obstáculos a um sistema de governação dinâmica. Não basta a liderança dos governantes, o seu esforço e carisma. Faz falta desenvolver capacidades nas organizações públicas para resolver problemas. Faz falta uma boa capacidade de gestão da mudança. Faz falta uma generalização maciça da aprendizagem contínua no Estado que leve à compreensão dos acontecimentos globais e regionais que afectam e afectarão Portugal. Faz falta mais abertura para adaptar o conhecimento global às especificidades do país.
    O sistema de governação precisa de se fundar num conjunto de valores e crenças partilhadas por todos os seus agentes. Ancorado numa cultura de integridade e incorruptibilidade. Focalizado nas pessoas e nos seus méritos e fazendo o melhor uso dos seus talentos. Racional, pragmático, orientado para os resultados. Eficiente, usando os mercados mas intervindo sempre que a equidade social fica em risco. ‘Think ahead’, ‘think again’, ‘think across’ são capacidades cognitivas essenciais a uma governação dinâmica que precisam de ser adquiridas e internalizadas nas estruturas e processos do Estado.
    ‘Thinking ahead’. Preparar o futuro. Consiste em dar conta das mudanças no ambiente físico, económico, social, antecipar os problemas, compreender o seu impacto futuro no país e pôr em prática políticas que permitam à população lidar eficazmente com as ameaças. Mas tirando também partido das oportunidades que possam surgir. Nos domínios da globalização económica, da segurança energética, das alterações climáticas, do ensino superior e da investigação, ou mesmo da escalada de preços nos produtos alimentares.
    ‘Thinking again’. Melhorar o desempenho. Boas políticas e programas que funcionaram bem no passado desactualizaram-se. É preciso pensar de novo sobre a sua relevância e em que medida respondem às necessidades da sociedade ou carecem de ser revistas a fim de alcançarem objectivos fundamentais. Os terrenos sensíveis da organização e das práticas da diplomacia oferecem matéria para reflexão.
    ‘Thinking across’. A economia baseada no conhecimento assenta numa constante recolha de informação, na investigação de ideias e de práticas úteis que se possam adaptar ao país. É tempo de atravessar todo o tipo de fronteiras e aprender com os outros. E incorporar essas percepções, reflexões e conhecimentos nas nossas crenças, políticas e estruturas. Tal como os países nórdicos, alguns países asiáticos são excelentes fontes de inspiração.
    Os principais ‘drivers’ do desenvolvimento destas capacidades de governação dinâmica são profissionais competentes que lideram as instituições que concebem e põem em prática políticas públicas e que agilizam os processos de renovação e de mudança organizacional do Estado. Haja clarividência para melhorar os critérios de recrutamento, selecção e compensação de administradores da coisa pública."

26 de março de 2008

Educação em Portugal (X)


Isto vai sobre sob a epígrafe da Educação, porque é onde a questão tem estado mais visível - aplica-se, no entanto, a toda a actividade do Estado, em todas as suas manifestações.



Maria Manuel Leitão Marques, Secretária de Estado da Modernização Administrativa, fala no Diario Economico.com, da Avaliação. Não tenho qualquer qualificação a fazer - o texto é impecável.



"Com poucas excepções, Portugal e outros países filiados na mesma tradição administrativa têm pouco hábito de convívio com uma cultura de avaliação. Avaliação das leis, das políticas e das reformas. Avaliação das instituições públicas. Avaliação dos seus dirigentes e dos funcionários.Nas leis e nas reformas, isso pode conduzir a que se sucedam umas às outras, cometendo os mesmos erros, por não terem sido identificados os anteriores. Faz ainda com que raramente se saiba se os resultados alcançados foram os inicialmente pretendidos.Nas instituições, a falta de avaliação leva a que não se detectem e corrijam más orientações de gestão e que não seja possível premiar as mais bem sucedidas.A ausência de avaliação das pessoas faz com que a sua progressão nas carreiras se faça pelo decurso do tempo. Induz a uma acomodação a práticas pouco eficientes e retira o incentivo a um melhor resultado profissional. Obviamente, também não permite distinguir os bons profissionais, que sempre existirão apesar disso..



Porque tal aconteceu ao longo de muitos anos, é natural que qualquer tentativa de introduzir uma cultura de avaliação suscite resistências, não encontre adeptos e tenha até dificuldade em instalar-se por falta de competências necessárias para que a avaliação possa ser feita com o rigor desejado.Quando a cultura de avaliação chegou às Universidades, na década de 90, também não foi recebida com aplausos, pese embora a carreira académica dos docentes ter sempre dependido de uma avaliação feita por pares. A resistência fez-se especialmente notar quanto à realização de inquéritos aos alunos sobre a prestação dos respectivos professores. Mas progressivamente as práticas de avaliação foram sendo absorvidas e comprovou-se até que os alunos raramente penalizam os professores mais exigentes, bem melhor cotados do que os mais faltosos. O mesmo aconteceu aos centros de investigação, neste caso avaliados por maioria de investigadores estrangeiros, exigindo dos Centros um elevado esforço de organização e passando os resultados a condicionar o financiamento para os anos seguintes.



Alguns dirão que ainda hoje qualquer destes sistemas está longe de ser perfeito. Com certeza. Mas será que existe um sistema perfeito de avaliação, totalmente objectivo, por exemplo?É de esperar que as dificuldades sejam mais visíveis e as resistências mais sonoras quando se trata de instituir sistemas de avaliação de pessoas, do que quando se trata de avaliar instituições. Mas a raiz dessa dificuldade é idêntica nos dois casos: um país com poucos hábitos de competição, que viveu muitos anos orgulhosamente só e pensou que poderia sobreviver eternamente assim. Convivendo com desperdício, maus resultados, ineficiências. Esperando que a qualidade surgisse por acaso, de esforços individuais notáveis que sempre despontam aqui e acolá, sem necessidade de organizadamente fazer algo por ela.Uma parte importante do sector privado (empresários e trabalhadores), que também passou por essa fase, aprendeu à sua custa que o mundo tinha mudado. E que as suas organizações deviam mudar também. É por isso que alguns dos aspectos mais contestados na avaliação dos funcionários públicos são hoje rotinas com que se convive regularmente nas empresas.Mas a seu lado o sector público permaneceu quase incólume. Como se o que mudava no mundo não lhe dissesse respeito.



Porém, a competitividade e a própria sobrevivência dos países também depende actualmente da capacidade do respectivo sector público reduzir burocracia, aumentar a sua eficiência, ajudar a melhorar as qualificações. Isso faz com que ninguém possa eximir-se a esse esforço de maior exigência e rigor, seja qual for a sua posição no mercado de trabalho.Obviamente, a falta de cultura de avaliação não é a causa de todas as nossas desgraças, nem a sua introdução um remédio salvador. Não é mãe de todas reformas das nossas instituições públicas. É apenas um aspecto importante delas. Pode ser adiada? Pode, claro. Um, dois , três, vinte anos, a vida toda. Podemos adiar o país todo. Com o risco de quando dermos conta ele já não existir."

28 de fevereiro de 2008

SEDES e o mal português

Assisti, esta noite, a um debate na SIC Notícias, com Campos e Cunha e Ribeiro Mendes, a-propósito do documento da SEDES, vindo a público há alguns dias, sobre o "mal português". Retive, entre muitas, estas afirmações (para memória futura e, no primeiro caso, para acrescentar alguma coisa, ao fim da nota):
  • a ausência de líderes políticos - no actual panorama político nacional e europeu - definidos como sendo aqueles que antecipam os problemas e que actuam em conformidade - a contrário, a difusão do político enquanto "representante", vivendo da gestão do dia-a-dia da pequena política, daquela determinada pelas sondagens, etc.;
  • a legislação é feita em grupos de trabalho que investigam quais são as melhores práticas e, depois, vertem isso na legislação nacional, esquecendo o facto do contexto ser diferente (o que altera as condições de eficácia dos dispositivos legais);
  • como se efectua o processo de decisão sobre os grandes projectos e as grandes questões: não existe a prática dos livros verdes, brancos, a sustentar a sua discussão pública;
  • o carácter asfixiante da regulamentação que dificulta, mas que possibilita, a posteriori, vender as "facilidades".

No que respeita à questão dos líderes, existe outra tipologia (do que conheço), mas confluindo com a referida por Campos e Cunha. Apanhei-a num livro de Howard Gardner (já lá vão mais de dez anos), Leading Minds - An anatomy of leadership, Harper Collins, 1996. Distingue entre: the ordinary leader; the innovative leader and the visionary leader:

"The ordinary leader, by definition the most common one,
simply relates the traditional story of his or her group as effectively as
possible ... does not seek to stretch the consciousness of his contemporary
audience. We can learn about the commonplace stories of a group by examining the
words and the lives of ordinary leaders; we are unlikely to be able to
antecipate the ways in which that group will evolve in the future."

"The innovative leader takes a story that has been latent
in the population, or among the members of his or her chosen domain, and brings
new attention or a fresh twist to that story. In recent world history,
neither Thatcher nor de Gaulle ... created wholly novel stories. Rather, it was
their particular genius to have identified stories or themes that already
existed in the culture but had become muted or negleted over the years...
these innovative leaders may succeed in reorienting their times."

"... the visionary leader... this individual actually
creates a new story, one not known to most individuals before, and achieves at
least a measure of success in conveying this story effectively to others... I
view individuals like Gandhi and Monnet as visionary leaders for our
time."

Que tipo de líderes necessitamos para os tempos que se avizinham?

17 de fevereiro de 2008

Administração Pública on-line

A quem possa interessar: The Economist publica, na sua edição de 17 de Fevereiro, um dossier sobre a Administração Pública on-line. São nove artigos: têm aqui o primeiro: The electronic bureaucrat Economist.com.