Campos e Cunha factualizou a crise e referiu o perigo da sua "Japonização" - subalternização da solução da crise bancária; o recurso a sucessivos de pacotes de estímulos orçamentais sem efeitos de resolução sustentados na crise económica e na deflação (no entanto, Krugman defende que o problema foi uma resposta orçamental não atempada e sem a dimensão adequada ao problema: ver, por exemplo:
Deficits and the Future;
Media cite Japan's "lost decade" to criticize Obama's economic stimulus plan, but economists disagree).
Apontou a situação orçamental portuguesa - mesmo antes dos pacotes - como tendo piorado em 2008 (neste blogue convirá reler, ou ler, esta
nota, para recordar o que o Professor pensa sobre a resolução dos problemas orçamentais portugueses).
Chamou a atenção para a divergência crescente entre os valores do PIB e do RN nacionais, resultante dos pagamentos líquidos ao exterior com origem no pagamento dos encargos de uma dívida externa em crescimento acelerado (no caso da Irlanda, a origem está no repatriamento dos lucros gerados pelo forte investimento externo verificado naquela economia ao longo das últimas décadas) e para a vulnerabilidade induzida por esse comportamento da dívida externa portuguesa - crescimento do
spread da dívida; possibilidade de contágio de eventuais crises de crédito de países em piores situações do que a nossa (caso da Grécia).
À luz disso (sustentabilidade das finanças públicas, gestão da evolução da dívida externa) e da necessidade de dar resposta à crise, articulou as suas recomendações:
Reduções de impostos, a acontecerem, só de forma limitada e cirurgica (estava a falar do país, mas, de novo, aproveito para relembrar que no caso dos Açores as razões para não haver desagravamento fiscal são ainda mais ponderosas);
Privilegiar, em termos de despesa e investimento público, as pequenas obras, disseminadas por todo o país - controlo dos primeiros efeitos do multiplicador; (não me recordo se referiu a rapidez desses efeitos: - neste momento, nos EUA, discute-se se essa rapidez é determinante em todo o caso:
Is the Implementation Lag for Infrastructure Investment a Problem?).
A sua posição em relação aos grandes investimentos públicos (
Campos e Cunha it´s not dead) reiterou-a: ou são capazes de gerarem um fluxo positivo de rendimento (líquido do pagamento do seu investimento e dos custos do seu funcionamento) ou não devem ser concretizados (daí a necessidade dos famigerados estudos custo-benefício, que afirmou não existirem). Oposição feroz aos TGV, às auto-estradas - aceitação (relutante) do investimento nas barragens: referiu que investimento na via férrea de alta-velocidade asseguraria o aproveitamento dos fundos comunitários (a contrário do que foi mencionado
aqui), e que, em qualquer caso, esses só cobririam 30% do investimento, ficando sempre de pé a necessidade de se verificar aquele fluxo líquido de rendimento (em que não acredita).
Em suma, tudo - além da esfera privada da economia, a gestão orçamental, o investimento público, a resposta à crise, - desemboca, directa ou indirectamente, na conformação da evolução da dívida externa (a economia portuguesa não consegue gerar um nível suficiente de poupança que cubra as necessidades de financiamento da despesa agregada, pública e privada, portuguesa). Isso não significa que não se tenha de acudir ao que é mais premente - a resposta à crise assente na política orçamental -, mas que, aquilo que tenha de ser feito, o seja da forma mais eficiente possível - obter o máximo de resultados (eficácia) para um dado nível de recursos.