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21 de março de 2016

Não estava a pensar nisso, mas gostava de uma confirmação da tese defendida pelo articulista

Confesso não gostar da influência espanhola na banca quando se configura como excessiva e como desejada pelas autoridades europeias. Porquê? Porque me sinto satisfeito com 1640, e com tudo o resto, e acho descabida a intromissão do exterior nesta área. Dito isto, e do outro lado, gosto muito de Espanha, da cultura espanhola, e de tudo o resto, e nada tenho contra o capital espanhol, ou qualquer outro, se cumprir minimamente com o que tem de cumprir. Ora, acontece, de acordo com o articulista, que a banca espanhola em Portugal cumpriu minimamente, coisa que a banca portuguesa não cumpriu, e por isso estamos, todos nós, a pagar caro. O articulista sugere que a opção pelo capital angolano, poderá ser uma opção, efetivamente mais nacionalista no sentido da reprodução da prática que descreve. Se for assim, eu teria de escolher a menos má solução: a espanhola. Enfim, vou manter, à cautela, uma posição agnóstica por enquanto, quanto a este assunto: gostaria de ter mais e melhor informação sobres os méritos relativos da banca espanhola em Portugal - não nos podemos esquecer que a banca espanhola em Espanha passou por percalços sérios. Em todo o caso o artigo merece séria consideração.

Não tenho vocação para Padeira de Aljubarrota

11 de março de 2016

Boas questões, mas quanto às respostas, vamos esperar sentados

"Mas na última década e meia as coisas não têm corrido bem. Portugal não cresce, e isso quer dizer que, em termos relativos, está a perder terreno em relação a grande parte do mundo, que se encontra, geralmente, num processo de crescimento. Não podemos sair desta situação sem um debate sério sobre algumas questões importantes: a) quais foram as causas do sucesso português entre 1950 e 2000, b) quais são as causas da paragem da economia desde então, e finalmente c) o que podemos fazer para mudar a situação no sentido de a melhorar. ..."

Qual deveria ser o debate?

4 de março de 2016

Eu estou de acordo com estas preocupações - eu explico-me

  1.  O texto de Rui Ramos, Em conversa com Vasco Pulido Valente, trata de uma questão decisiva para a democracia portuguesa: o do Estado que temos - adiantaria: versus o Estado de que necessitamos. Em minha opinião, o Estado de que necessitamos não é, definitivamente, o Estado que temos. O Estado que temos, o Estado clientelar, não é - por isso mesmo: por ser clientelar - forte, eficaz e eficiente.  Tem razão Medina Carreira quando diz que não temos economia para termos o Estado que temos, mas necessitamos de um Estado forte, eficaz e eficiente para termos uma economia de jeito, uma que nos prepare para os choques que o futuro vem aí a trazer. É interessante que neste momento a esquerda (a democrática) não se preocupe com o assunto: só comentadores do centro direita tocam no assunto, e a conclusão que retiram, mais que não seja por omissão, vai no sentido neo-liberal de menos Estado ser a solução quando, a meu ver, só em desespero de causa, "and for the sake of argument", poderia alvitrar-se que isso seria o mal menor face à impossibilidade de termos o Estado de que necessitamos. O conceito de Estado clientelar poderá não ser o suficiente para abarcar a situação do Estado que temos, mas o aprofundamento da discussão passa por aí como passa pela leitura do livros de Acemoglu e Robinsom, Porque as Nações falham? e o de Fukuyama, As Origens da Ordem Política (já os leram? Tenho vindo a sugeri-lo, a tutti quanti, sem grande sucesso. Rui Ramos e outros leram-os, sem dúvida).
  2.  Respeitei a Maria Luís Albuquerque como Ministra das Finanças. Quanto à sua decisão de combinar o desempenho de deputada com a de Administradora da empresa noticiada, repito, num juízo mínimo, o que disse Manuela Ferreira Leite: que devia ter tido mais bom senso. O texto de Paulo Ferreira,Maria Luís, a pretexto disso, levanta questões importantes.

25 de fevereiro de 2016

A coisa é até simples de perceber; exige é que se tenha (que se queira) o modelo de explicação adequado.

Explanação do problema português atual, de modo claro, eficaz e eficiente - enfim, porque razão a tragédia existe, as suas causas primeiras, isso só, lateralmente, é abordado. Leitura recomendada. O comentário mais curioso, a modos como encriptado, é o contido na última frase.

Não Há Almoços Grátis - A tragédia - João César das Neves - DN

18 de fevereiro de 2016

Uma dúvida essencial

Nesta parábola de João César das Neves o que me, ainda, levanta dúvidas não é a adequação do acidente do Titanic como imagem evocativa do que se passou em Portugal, no período do pré-ajustamento, e na primeira fase do ajustamento - é a interpretação das razões que explicam o comportamento da oposição, máxime, do partido Socialista em todo o processo. Isso, é, ainda, para mim, nebuloso: tratou-se, trata-se, de expedientes políticos, de taticismos "casuísticos", ou, mesmo, da real convicção política do processo de ajustamento, no seu todo, ter sido um erro? Esta é uma das questões políticas mais determinantes que Portugal tem neste momento, e muito em particular, a esquerda (não da esquerda à esquerda). Por exemplo, António Vitorino, ouvi-o eu dizê-lo, na TV, que não havia dúvidas que o ajustamento tinha sido necessário. Se António Vitorino o diz, essa é, a convicção do PM? Não sei responder.


Não Há Almoços Grátis - Titanic - João César das Neves - DN

25 de abril de 2012

Substituam em baixo Enron por aquilo que quiserem, e têm a explicação para muitas coisas...


"Ultimately, it was Enron’s tragedy to be filled with people smart enough to know how to maneuver around the rules, but not wise enough to understand why the rules had been written in the first place."

--Kurt Eichenwald, Conspiracy of Fools: A True Story

A propósito do 25 de Abril

Tenho estado de molho, e isso acomodado com dados estados de alma e de prática, explicam a minha ausência do Notas II. O que se segue vem a propósito do 25 de Abril. Penso ter já referido o livro do Paulo Trigo Pereira. Repito que é um livro a ler - haveriam qualificações a fazer, mas nada de particularmente relevante para já.


Paulo Trigo Pereira, autor de “Portugal: Dívida Pública e Défice Democrático”, explica o actual estado do País. 

Porque chegámos ao ponto a que chegámos de insustentabilidade das finanças públicas e de necessidade de impor sacrifícios acrescidos aos portugueses? Porque tendem as democracias a produzir défices e que reformas de natureza institucional são necessárias? "O principal objectivo deste ensaio é dar resposta a (estas) duas questões", ambiciona, na nota introdutória, Paulo Trigo Pereira, autor de "Portugal: Dívida Pública e Défice Democrático".

E consegue. De leitura fácil e repleto de dados económicos interessantes, neste livro, cujo argumento central é que "os problemas das finanças públicas derivam de fraca qualidade da democracia", encontramos explicações para a actual situação económica. Leia abaixo a entrevista ao autor, que pode ser lida na íntegra no ‘blog' livrosemanias.blogs.sapo.pt.

Porque tendem as democracias a produzir défices?

Há várias razões. Primeiro, porque os cidadãos não estão geralmente bem informados e tendem a premiar políticos que descem, ou não sobem, impostos e agrada-lhes quem faz "obra". Isto é, aumenta a despesa, sem verem a conexão directa com a despesa pública. Depois porque, sem limites ao endividamento (em qualidade e quantidade), as gerações presentes impõem um ónus às gerações futuras, que ainda não estão cá, ou ainda não têm idade para votar. Finalmente, porque a democracia assenta demasiado na competição política, não havendo grandes incentivos para a cooperação que, em certas reformas estruturais, é crucial.

Até que ponto é que a democracia está relacionada com o desenvolvimento económico; e vice-versa?

Há certos tipos de democracia que são obstáculos ao desenvolvimento económico, mesmo em países desenvolvidos. Quando o Estado é caracterizado por um corporativismo social, com grupos de interesse e lóbis enraizados defendendo interesses particularistas, contra o interesse geral, aqui não existe desenvolvimento. A sociedade em vez de ter incentivos que promovem o desenvolvimento, a criação de riqueza e a redistribuição generalista para os mais carenciados promove, pelo contrário, estratégias rentistas e redistributivas de satisfação de clientelas com poder de influência.

No caso português: será que corremos o risco de ficarmos menos desenvolvidos com tantas medidas de austeridade? Será que nos podemos tornar num país mais desigual e menos democrático?

Devemos distinguir "austeridade"(por exemplo corte de salários) de "consolidação orçamental" (redução de défice e dívida), pelo que pode haver consolidação, que é essencial, com mais ou menos austeridade. Só por si, a consolidação não leva a maior desigualdade e menor democracia. Depende da forma como for feita.

Se tiver que enumerar cinco variáveis "responsáveis" pela actual situação da nossa dívida pública, essas são? 

Escolho duas económicas, uma "cultural" e duas políticas. Desorçamentação (saída de organismos dos orçamentos das administrações públicas), Parcerias público-privadas particularmente no sector rodoviário, a "cultura" do défice natural, eterno e virtuoso, o sistema eleitoral (fechado e bloqueado), e o financiamento dos partidos políticos, sem consignação de verbas a grupos de estudo internos.
...

Numa perspectiva económica, o fado português tem um traçado cíclico? 

A qualificação das pessoas é essencial. As Universidades necessitam de um "choque de mobilidade" do seu corpo docente, para melhorar a sua qualificação e, através dela, a dos seus alunos. Ao fim de cinco anos, todos os doutorados deveriam ser obrigados a concorrer a outra escola. Os Politécnicos ganhariam com maior qualificação do seu corpo docente. A formação de quadros na Administração deveria ser de qualidade, o contrário do que está a acontecer com a extinção do Instituto Nacional de Administração (INA).

Acredita que os sacrifícios pedidos aos portugueses valerão a pena? 

Nem todos os actuais sacrifícios são necessários, pois há escolhas que este governo fez e com as quais discordo, por não serem universais e equitativas. Trata-se de opções governamentais e não de necessidades. Mas parte dos sacrifícios são necessários, e não só não temos uma alternativa como há já alguns resultados positivos desta perca parcial de soberania. Enterrámos alguns projectos megalómanos e estamos a aumentar a transparência da Res Pública, isto é da coisa pública que é financiada por todos nós. Estamos mais pobres, mas porventura mais solidários e decerto mais atentos ao que se passa nesta nossa casa comum chamada Portugal.


9 de fevereiro de 2012

Notas respigadas duma leitura em curso, de ontem e de hoje, que se recomenda de novo

Da II parte, ponto 5, de Portugal: Dívida Pública e Défice Democrático, de Paulo Trigo Pereira, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
A nossa democracia tem sido incapaz de tomar decisões políticas sustentáveis, que no longo prazo se financiem de forma equilibrada.
Em sociedades democráticas há essencialmente duas perspectivas em relação à determinação do interesse público. Uma, a de que o bem comum será aquilo que a maioria considerar que é do interesse público [....] Outra visão de interesse público, que subscrevemos, enfatiza o processo pelo qual se alcança a decisão política e dá maior importância às condições de deliberação prévias á decisão final [....] A probabilidade de as decisões políticas contribuírem para o bem comum é maior se elas resultarem de processos transparentes (informação, estudos, relatórios) e imparciais de deliberação pública sobre opções em presença e os impactos imediatos e futuros das possíveis alternativas de acção. A votação final será por vezes necessária quando não exista consenso, mas é apenas um estádio da tomada de decisão [....]
As razões [....] {por que} muitas vezes não {se} acautelam devidamente o impacto das medidas que têm efeitos nas próximas gerações são sobretudo três e reforçam-se mutuamente: desconhecimento do alcance e dimensão dos problemas; ausência, ou pouca relevância, dada a considerações éticas intergeracionais; desfasamento no tempo entre a tomada de decisão política e os impactos económicos e sociais dessas decisões [....].
O problema que estamos a analisar é o que pode surgir quando na provisão de certos bens e serviços (que se pensa serem públicos) os benefícios são concentrados e os custos difusos [....] Sempre que as unidades de decisão escolhem na base de benefícios específicos e conseguem "exportar" parte dos custos para terceiros (não beneficiários), as decisões são ineficientes (produz-se mais que o óptimo [o exemplo dado é o da construção hipotética de um túnel na Madeira que produzirá 26 milhões de benefícios diversos contra um custo de 100 milhões, mas que será feito porque do ponto de vista estrito do GRRAM o custo efectivo será só de 25 milhões - a parte paga pelas receitas fiscais da Região - com o resto a ser pago por outros: contribuintes europeus e continentais]

21 de janeiro de 2012

O ridículo do pastel de nata

O ridículo do pastel de nata não está no que o ministro disso a propósito, mas no ridículo que querem imputar ao que disse e na dimensão que lhe deram. A preocupação que se deve ter com o episódio é com aquilo que o episódio parece sugerir sobre  nós próprios.

O que o ministro disse é simples: o pastel é um recurso nacional (cultural, gastronómico), tal como a cortiça, as sardinhas enlatadas, o vinho de porto, e coisas quejandas, de qualidade comprovada e de fácil penetração em tudo o que é sítio, e que deve ser utilizado como aqueles para os devidos efeitos, a nível internacional  – um dos efeitos (admitá-mo-lo: trivial e economicista)  é gerar rendimento que possibilite o país financiar as compras (entre quais o novo carro, o novo portátil, a viagem a Cuba, as aparelhagens para o SNS, etc, etc.) que fazemos ao estrangeiro, sem aumentar o endividamento externo galopante que se verificou na última década  e que se constitui como a grande determinante do sarilho em que estamos metidos.  Elementar .

O ministro não referiu que a solução dos problemas nacionais está no pastel (ou na sua mera exportação, embora alguns o façam com sucesso, o que só reforça o argumento), mas disse implicitamente, que a solução passa, também, pelo erradicar da atitude que leva a que o país económico não aproveite as boas oportunidades de negócio específicas de que dispõe. O ministro o que quiz dizer é  que não não devemos, não nos podemos dar o luxo de desprezar nem o pastel de nata, nem os outros pastéis (em sentido estrito, enfatizo eu, porque  a doçaria nacional, resultado de termos sidos os primeiros grandes produtores da droga açúcar, é riquíssima – olhem, que belo exemplo, foi com ela que financiamos a gloriosa expansão no Atlântico de quatrocentos – e atrás do pastel de nata poderia marchar toda aquela) nem quaisquer outros produtos portugueses. O ministro poderia ter acrescentado, numa linha de intervenção pedagógica, que na área das exportações, se aplica o ditado da galinha encher o papo, grão a grão, e ter frisado que estava espantado pelo facto de alguém não ter feito com o pastel luso aquilo que os dinamarqueses fizeram com o queijo grego Feta. É óbvio que o ministro não tem a tarimba política dos useiros da política portuguesa – nenhum deles diria semelhante coisa; o ministro é naif; é um estrangeirado e não tem dignitas.

O desprezo de muita da elite portuguesa sobre os estrangeirados e as questões do pastel é um desprezo fidalgo, pré-revolução industrial, muito Ancien Régime, muito anti-economicista, alimentada pelo desconhecimento do país (nisso o Pacheco Pereira tem toda a razão), por todo o tipo de iliteracias, e pelo preconceito contra a possibilidade do que é português e bom, simplesmente por ser modesto, não passar lá fora e poder mesmo envergonharmo-nos – mais um afloramento da mania das grandezas e o do que é próprio  (leia-se Os Fidalgos da Casa Mourisca, para começar). É por isso que quando falam do regresso à terra, ou o regresso ao mar, não sabem do que estão a falar, não que esse propósito não seja correcto, mas porque não tem qualquer ideia do que isso exige para ser eficaz (ah, também, eficiente).

E o que é mais interessante, tendo em atenção que grande parte dessa elite é de esquerda,  é que à volta do problema do pastel se poderia articular mais um contributo para a narrativa (em grande parte correcta) do grande capital em Portugal só estar interessado na produção de bens não-transacionáveis, em sectores de acesso condicionado ao apadrinhamento do Estado, e na distribuição, na medida em que, apesar desse grande capital dispor dos meios para o efeito, deixar de lado, contra toda a racionalidade económica, oportunidades de negócio como lançarem, ou promover o lançamento, à escala global um bom franchising do pastel, do café, etc. (um Starbucks luso, como já existe um McDonal's do frango do churrasco - que nos valham os emigrantes, portugueses sem pretensões, que limitam-se a vender aquilo que vende). O desprezo subjectivo (e objectivo) manifestado quanto ao pastel é mais um  indicador da fragilidade e falta de profundidade do capitalismo luso, mas ao mesmo tempo, de grande parte da esquerda, que não conhece o seu país, o mundo em que vive, e que, nem, ao menos, leu algumas coisas ...

Aliás, recuperando a polémica sobre o patriotismo do grupo Jerónimo Martins, para mim a grande questão nunca foi a transferência do domicílio fiscal para o Holanda, mas saber se a sua  internacionalização induziu um aumento interessante da exportação de produtos portugueses, e obviamente, já agora, se ocorreu ao grupo pôr os polacos a comer o pastel, entre outras coisas. Se assim não aconteceu, ou não são bons gestores, ou não valorizam o que o país tem e não são patriotas, o que, convenhamos, vai dar tudo no mesmo: Q.E.D.

23 de dezembro de 2011

Quando em desespero com os políticos, os economistas falam de regras ... à falta de melhor solução ...


Costas Meghir argues that an important element of the Greek malaise is the credibility of Greek politicians and their long history of abusing their power by borrowing vast amounts and spending them to satisfy specific interests and a client-based political system. Their behavior is not a surprise to the student of political economy: politicians, like everyone else, act in their best interest. Constitutions and laws are there to align their interests as far as possible with those of the people they serve. Given the existential crisis of the Greek economy it is now an opportunity to reform the constitution to improve the credibility and incentives of the politicians. Meghir proposes a constitutionally mandated cap on the deficit of 3% and on the debt to gdp ratio of 60%, following a suitable period of adjustment and the necessary restructuring of the debt. He also proposes the abolition of all immunity from prosecution of all government ministers and all members of parliament.