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21 de maio de 2016

Isto tudo pode correr mesmo muito mal

Isto é a coisa mais, sinistramente, convincente que li sobre o perigo Trump. O artigo, por vezes, é incómodo pelos pressupostos e itens usados para caracterizar o estádio atual da democracia norte-americana, mas vale a pena levar a leitura até ao fim. No entretanto, tenho mesmo de ler o que Platão diz sobre a fase avançada da democracia - já conhecia Eric Hoffer: o livro dele está traduzido em português sob o título, "Do fanatismo - O verdadeiro crente e a natureza dos movimentos de massa", Guerra e Paz, 2007. Ah, e tenho de reler isto.

America Has Never Been So Ripe for Tyranny

4 de março de 2012

A questão da moral nos EUA


ASKED to explain his support for Rick Santorum in Michigan's primary, voter Sandy Munro said, "Now what we need is a strong political leader to do something to get us out of the moral slump that we’re in."

Mr Santorum would agree, having noted that "Satan has his sights on the United States of America." As would Mitt Romney, who has attacked the decay caused by Barack Obama's "secular agenda". Newt Gingrich has gone the furthest, stating, “A country that has been now since 1963 relentlessly in the courts driving God out of public life shouldn’t be surprised at all the problems we have."

But what are these problems? When considering America's moral decline, my first instinct was to look at the crime rate. If Satan is at work in America, he's probably nicking wallets and assaulting old ladies. But over the past several decades the crime rate has fallen dramatically, despite what you may think. The homicide rate has been cut in half since 1991; violent crime and property crime are also way down. Even those pesky kids are committing less crime. There are some caveats to these statistics, as my colleague points out, but I think we can conclude that crime is not the cause of America's moral decline. So let's look elsewhere. Abortion has returned as a hot-button issue, perhaps it is eating away at our moral fiber. Hmm, the abortion rate declined by 8% between 2000 and 2008. Increases in divorce and infidelity could be considered indicators of our moral decay. There's just one problem: according to the Center for Disease Control and Prevention, the divorce rate is the lowest it has been since the early 1970s. This is in part due to the recession, but infidelity is down too.

Other areas that might indicate declining virtue are also going against the perceived trend. For example, charitable giving is up after a decline during the recession. The teenage pregnancy rate is at its lowest level in 40 years. And according to Education Week, "the nation’s graduation rate stands at 72 percent, the highest level of high school completion in more than two decades." So where is the evidence of this moral decline? 

[continua. e bastante interessante...]

27 de novembro de 2011

Este é um texto de esquerda, da esquerda pura e dura, da efectiva "análise concreta da situação concreta"

Estava a pensar em fazer um comentário mais desenvolvido sobre este artigo da Naomi Klein, mas falta-me a pachorra. Em todo o caso, permitem-me sublinhar que este artigo é o melhor que li durante muito tempo em termos de esquerda e de esquerda radical (na acepção que dou ao conceito de radical, que não será decerto o de muita gente).

Na ausência do comentário, o bold e o sublinhado permitirão perceber o que considero relevante  e o que, em princípio, concordo (mas, talvez, com algumas qualificações) - o bold com o sublinhado indicam aquilo em que estou absolutamente de acordo. O simples sublinhado é uma chamada de atenção para algo que, a meu ver, naturalmente, deve ser tido em linha de conta, mas que, nalguns casos - atenção, só nalguns casos - pode também não ser (factual ou programaticamente) correcto, ou que deve merecer qualificações. Isto não é mesmo uma forma eficiente de fazer um comentário?

Transcrevi o artigo na totalidade.

Capitalism vs. the Climate | The Nation

There is a question from a gentleman in the fourth row.He introduces himself as Richard Rothschild. He tells the crowd that he ran for county commissioner in Maryland’s Carroll County because he had come to the conclusion that policies to combat global warming were actually “an attack on middle-class American capitalism.” His question for the panelists, gathered in a Washington, DC, Marriott Hotel in late June, is this: “To what extent is this entire movement simply a green Trojan horse, whose belly is full with red Marxist socioeconomic doctrine?”

6 de setembro de 2011

No que Marx, efectivamente, acertou ...


Karl Marx may have been wrong about communism but he was right about much of capitalism, John Gray writes. 

As a side-effect of the financial crisis, more and more people are starting to think Karl Marx was right. The great 19th Century German philosopher, economist and revolutionary believed that capitalism was radically unstable.It had a built-in tendency to produce ever larger booms and busts, and over the longer term it was bound to destroy itself.Marx welcomed capitalism's self-destruction. He was confident that a popular revolution would occur and bring a communist system into being that would be more productive and far more humane. 

Marx was wrong about communism. Where he was prophetically right was in his grasp of the revolution of capitalism. It's not just capitalism's endemic instability that he understood, though in this regard he was far more perceptive than most economists in his day and ours.
Karl Marx Marx co-authored The Communist Manifesto with Friedrich Engels

6 de junho de 2011

A leitura adequada para socialistas no dia seguinte às eleições

Uma das imbecilidades cometidas por António Guterres foi ter demitido Augusto Mateus de Ministro de Economia, e desconfio, embora nunca tenha inquirido sobre o assunto, que nunca depois foi devidamente aproveitado pelos outros socialistas, o que eleva aquele primeiro disparate ao nível de imbecilidade ainda maior e sustentada no tempo. É que o Augusto Mateus, sendo um excelente economista académico, conhece como muito poucos a economia portuguesa concreta, e consegue pensar Portugal de modo criativo, informado, e estratégico, e isso - que se espantem alguns, de um lado e de outro - sendo de esquerda e, repito, economista. Ora, não há muitos desse tipo, com esse acervo de qualidades, por cá. Pensei sempre assim, e não por ser amigo do senhor, mas essa convicção aprofundou-se, cada vez mais, com o tempo. 

Assim, a entrevista abaixo deve ser lida, particularmente neste dia após as eleições, embora - sejamos decentes e façamos a adequada advertência em benefício dos socialistas conservadores, daqueles que usam e abusam do impropério "economicista": - fala-se muito, Deus nos valha, de eficiência e coisas quejandas.

O que se transcreve abaixo é a introdução à entrevista:

"Para Augusto Mateus, economista e ex-ministro de António Guterres, Portugal deve diversificar as vendas para novos mercados, em especial para os que crescem depressa. Num estudo realizado para a Caixa Geral de Depósitos (CGD), onde estudou de modo detalhado o desenvolvimento da economia portuguesa, o economista concluiu que, mais importante do que definir onde é que o país deve apostar, é criar o ambiente favorável para que se invista, mas sempre no sector de bens transacionáveis, não regulado. É aí que o país dispõe de vantagens. Para Augusto Mateus há elementos no memorando da troika “que são verdadeiras oportunidades para se fazerem as mudanças necessárias, mas há outros que se forem postos em marcha precipitadamente podem ser negativos”." [continuar a ler em Augusto Mateus: "Onde Portugal é competitivo é na mão-de-obra qualificada" - Economia - PUBLICO.PT]

PS: Votei, calmamente, em branco, mas recebi as notícias da derrota de Sócrates com um distanciado vazio.

6 de fevereiro de 2011

A ter em linha de conta


"In 1995, I published a book called The World After Communism. Today, I wonder whether there will be a world after capitalism.That question is not prompted by the worst economic slump since the 1930’s. Capitalism has always had crises, and will go on having them. Rather, it comes from the feeling that Western civilization is increasingly unsatisfying, saddled with a system of incentives that are essential for accumulating wealth, but that undermine our capacity to enjoy it. Capitalism may be close to exhausting its potential to create a better life – at least in the world’s rich countries.

By “better,” I mean better ethically, not materially. Material gains may continue, though evidence shows that they no longer make people happier. My discontent is with the quality of a civilization in which the production and consumption of unnecessary goods has become most people’s main occupation. This is not to denigrate capitalism. It was, and is, a superb system for overcoming scarcity. By organising production efficiently, and directing it to the pursuit of welfare rather than power, it has lifted a large part of the world out of poverty.

Yet what happens to such a system when scarcity has been turned to plenty? Does it just go on producing more of the same, stimulating jaded appetites with new gadgets, thrills, and excitements? How much longer can this continue? Do we spend the next century wallowing in triviality? For most of the last century, the alternative to capitalism was socialism. But socialism, in its classical form, failed – as it had to. Public production is inferior to private production for any number of reasons, not least because it destroys choice and variety. And, since the collapse of communism, there has been no coherent alternative to capitalism. Beyond capitalism, it seems, stretches a vista of…capitalism. ....

- Sent using Google Toolbar"

O artigo continua. As perguntas feitas têm de ser respondidas e sê-lo-ão de uma ou outra forma. As respostas, obviamente, é que serão diferentes, como diferentes serão os seus custos para todos nós.

27 de fevereiro de 2010

Leituras sobre a conjuntura (política) portuguesa

  • arquivo: O exemplo de Figo| Pedro Adão e Silva: "Dificilmente haverá exemplo mais acabado da disfuncionalidade a que chegou a nossa vida política e económica do que o caso Figo. [...] Mas o caso Figo tem outra face: os partidos, em acentuada trajectória de descrédito social, procuram compensar a credibilidade perdida através de uma colecção de cromos que vai sendo exibida ao lado dos líderes. As máquinas partidárias, devidamente fustigadas, interiorizaram a sua própria falência e vivem deslumbradas com o apoio de uns quantos notáveis. É pouco provável que haja ganhos eleitorais significativos com estas aparições em campanha. As razões das escolhas eleitorais são outras e, paradoxalmente, o investimento nos notáveis convive com uma negligência dos partidos nos factores que enraízam mais as escolhas. [...]"
  • arquivo: Sinais de crise sistémica|Pedro Adão e Silva: "[...] Num cenário de degradação genérica da imagem da actividade política, combinada com a sugestão de que há zonas cinzentas de relações promíscuas entre políticos e actividades empresariais, é o próprio sistema que sai corroído. [...]" 
  • O desmancha prazeres - Visao.pt: "[...]Fernando Nobre é um desmancha-prazeres. Ele pode até ser próximo de Mário Soares - mas os eleitores não o vêem como um socialista e, muito menos, como um homem de partido. Os portugueses têm de Fernando Nobre a ideia de uma espécie de 'santo de serviço' e será difícil denegri-lo com o rótulo de 'politiqueiro', como a candidatura de Alegre já começou a insinuar. A sua intervenção dá resposta aos bonitos discursos dos políticos que apelam à participação dos cidadãos e da sociedade civil na política - escondendo, ao mesmo tempo, a intenção de que essa participação seja devidamente enquadrada partidariamente. Pouco sinceros, os partidos não querem cativar independentes, antes pretendem angariar 'idiotas úteis'.[...]"

17 de fevereiro de 2010

Avatar

Sinceramente, não pensava voltar ao assunto, mas para provar que a direita, nomeadamente a norte-americana, foi capaz de perceber que estava face a algo não trivial, e desagradável para o que representa, ver a notícia, que se referencia abaixo, do aproveitamento que muita, e boa gente, a nível mundial está a fazer do filme para realçar a injustiça de que está a ser alvo:

Avatar: an all-purpose allegory | FP Passport: "James Cameron's sci-fi epic Avatar has becoming something of a political rorsarch test around the world. The story of the alien Na'avi's struggles against the invasion of Earth's military-industrial complexhas taken on some surprising allegorical means for movements around the world [...]"

25 de janeiro de 2010

Ainda sobre Manuel Alegre (II)

De alguém com quem tenha estado, quase sempre, de acordo - desta vez, não consigo enfatizar de modo adequado quão de acordo estou com o que se diz abaixo (o artigo deve ser lido na totalidade):  

"Joana d´Arc e De Gaulle 'ouviam vozes'. Há sempre quem nos queira convencer de que responde a um apelo interior. É desta massa que nascem os mitos. Só que a situação não está para fantasias. Temos problemas imediatos e difíceis, não temos em frente de nós uma planura para despiques e correrias. Temos quem está, muitas vezes pouco bem, mas está e vai melhorar. 

Se Alegre quer experimentar a lança que o faça nesse torneio, nos próximos doze meses. Que considere Cavaco o seu adversário, não Sócrates, os soaristas ou o PS relutante. 

Que mostre arreganho, conhecimento, engenho e também tolerância para os seus amigos discordantes. Que nos fale de coisas terrenas, com estatísticas, não com mitos. Que nos diga se nos propõe estimular o Governo a controlar o défice e a dívida, ou se não trata dessas miudezas. Se vai valorizar a inovação, o risco, a competitividade, o espírito empreendedor, ou se acha que a solução da crise está em aumentar a despesa social. Provavelmente não convencerá uma maioria, mas terá cumprido uma missão."

Para cruzar com o que se referiu, ou reproduziu, aqui e aqui.


29 de novembro de 2009

Enfim, ... nada que não se saiba de há muito

"[...] A direita nacionalista e a esquerda radical, nas suas diversas variantes, compartilham o mesmo espírito antieuropeísta. Por mais benefícios que traga aos cidadãos europeus, tudo o que se traduza em mais integração europeia é, para eles, intrinsecamente maléfico. Não admira que também tenham convergido na rejeição do Tratado de Lisboa."

Ler em  Causa Nossa: "Chocante, Vital Moreira"

16 de outubro de 2009

Uma dada maneira de ver a esquerda

"Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa, porém, é modificá-lo"    Karl Marx, Teses sobre Feuerbach

Sempre considerei esta idéia como a verdadeira fundação do que é ser de esquerda, embora o bom senso e o conhecimento do que se passou no século XX, obrigue a muitas suas qualificações. A aparente ironia desta nota para qualquer um que o conheça, é que ela resulta da leitura, em curso, do livro de Karl Popper, "A pobreza do historicismo".

10 de outubro de 2009

Relevância actual de Marx

Muito interessante:

"Is Marx's vision still relevant in the twenty-first century world?

At bottom, Marx's biggest ideas were "critique," "exploitation," "alienation," "ideology," and "class." He also constructed a fairly specific theory of capitalism and capitalist development -- a theory that has historical pluses and minuses -- and a theory of socialism that can be understood along more democratic and more authoritarian lines. We might say that his theory of capitalism was too deeply grounded in the observed experience of mid-nineteenth-century Britain, and his theory of socialism paid too little attention to the crushing possibilities of power wielded by a future socialist state. Too much economics, too little politics in his worldview -- and too much of a Hegelian "necessitarianism" in his expectations about the future.

History has shown us a few things that Marx too would have recognized, with the benefit of another century of experience. History does not conform to a necessary logic of development. Capitalism is not one thing, but a set of institutions that have proven fairly malleable. There is no single "logic of capitalist development." Compromises and institutional accommodations are possible between contending economic classes. Social democracy, democratic socialism, Stalinist communism, fascist dictatorship, and liberal democracy are all feasible political institutions governing "modern" economic development.

So we might take a deep breath, take a step back, and ask a big counterfactual: How might Marx, with his critical eye for inequality and power and his acute sensibilities as a sociologist -- how might this social critic and theorist have processed the social realities of China in Shanghai in the 1980s? [...]"

9 de julho de 2009

Ainda sobre o debate sobre o aquecimento global

Não poderia vir mais a-propósito - à luz do que se diz nas duas últimas notas - este artigo de George Monbiot, no Guardian, Climate denial 'astroturfers' should stop hiding behind pseudonyms Environment guardian.co.uk. Um excerto (parte dele, inseri-o num comentário ao apontamento do Blasfémias referido na minha antepenúltima nota):

"On the Guardian's
environment site in particular, and to a lesser extent on threads across the Guardian's output, considered discussion is being drowned in a tide of vituperative gibberish. A few hundred commenters appear to be engaged in a competition to reach the outer limits of stupidity. They post so often and shout so loudly that intelligent debate appears to have fled from many threads, as other posters have simply given up in disgust. I've now reached the point at which I can't be bothered to read beyond the first page or so of comments. It is simply too depressing.


The pattern, where environmental issues are concerned, is always the same. You can raise any issue you like, introduce a dossier of new information, deploy a novel argument, drop a shocking revelation. The comments which follow appear almost to have been pre-written. Whether or not you mentioned it, large numbers will concentrate on
climate change – or rather on denying its existence. Another tranche will concentrate on attacking the parentage and lifestyle of the author. Very few address the substance of the article.


I believe that much of this is native idiocy: the infantile blathering of people who have no idea how to engage in debate. Many of the posters appear to have fallen for the nonsense produced by
professional climate change deniers, and to have adopted their rhetoric and methods. But it is implausible to suppose that this is all that's going on. As I documented extensively in my book Heat, and as sites like DeSmogBlog and Exxonsecrets show, there is a large and well-funded campaign by oil, coal and electricity companies to insert their views into the media.


They have two main modes of operating: paying people to masquerade as independent experts, and paying people to masquerade as members of the public. These fake "concerned citizens" claim to be worried about a conspiracy by governments and scientists to raise taxes and restrict their freedoms in the name of tackling a non-existent issue. This tactic is called
astroturfing. It's a well-trodden technique, also deployed extensively by the tobacco industry. You pay a public relations company to create a fake grassroots (astroturf) movement, composed of people who are paid for their services. They lobby against government attempts to regulate the industry and seek to drown out and discredit people who draw attention to the issues the corporations want the public to ignore.


Considering the lengths to which these companies have gone to insert themselves into publications where there is a risk of exposure, it is inconceivable that they are not making use of the Guardian's threads, where they are protected by the posters' anonymity. Some of the commenters on these threads have been paid to disseminate their nonsense, but we have no means, under the current system, of knowing which ones they are.


Two months ago I read some comments by a person using the moniker
scunnered52, whose tone and content reminded me of material published by professional deniers. I called him out, asking "Is my suspicion correct? How about providing a verifiable identity to lay this concern to rest?" I repeated my challenge in another thread. He used distraction and avoidance in his replies, but would not answer or even address my question, which gave me the strong impression that my suspicion was correct. "
Só idiotas, e idiotas ignorantes, não contemporâneos do seu tempo, é que pensam que o assunto não é sério, mesmo do ponto de vista político, e, principalmente, mesmo do ponto de vista da esquerda - o Bloco de Esquerda, tão esquerda esquerda, tão esquerda intelectual, tão esquerda moderna, tem neste aspecto um bom indicador do que é efectivamente; a ser algo de sério, à esquerda, deveria ser também o partido do combate ao aquecimento global, o partido da eficiência energética, etc. etc. (o PS de Sócrates - repito, o de Sócrates - está muito mais à frente deles, nessas matérias).

24 de fevereiro de 2009

Algo só para quem conhece o que se passou...

Do livro "Não percas a rosa", de Natália Correia, notícias editorial, a pp. 349, sob a epígrafe de "25 de Novembro de 1975", o seguinte trecho:
"[...] O Ralis, onde há dias, sob a asa narcotizada de Fabião, o juramento de bandeira de punho fechado teve um cunho horripilantemente nazi pintalgado de comunista pela saudação de uma operária aos "camaradas soldados"[...]"
Apesar de tudo, e tudo considerado, a esta distância, é um comentário divertido.

11 de fevereiro de 2009

À esquerda da esquerda

En França foi criado o "novo partido anti-capitalista" (penso que se chama assim mesmo). Foi fundado por ex-trotskistas. A nota da Telos, além de apreciar a "profundidade" do programa, aproveita esse facto para relembrar um conjunto largo de factos e assuntos que importa não esquecer, nesta conjuntura de crise do sistema e de arreganho de velhas correntes políticas e ideológicas já testadas pela história (embora, muitas vezes, surgindo sob cara nova).
Ler em Le versant sombre du petit facteur Telos

12 de janeiro de 2009

O regresso a Marx

"A absurda ideia de que há um "regresso a Marx" Se ao menos o "regresso a Marx" se traduzisse numa leitura de Marx, um dos autores fundamentais da nossa contemporaneidade, ainda valia a pena. Não é isso que se passa, mas a deterioração acentuada do pensamento da chamada "esquerda independente" e das modas mediáticas. E disso Marx não tem culpa."
Lido em ABRUPTO. Nada a qualificar e devem lê-lo.

17 de dezembro de 2008

A dita discussão das esquerdas

A esquerda deixou há muito de discutir, de estudar, de analisar (1). A esquerda, toda a esquerda, deixou de ser contemporânea do momento em que se vive - um exemplo: a esquerda ignora a questão das alterações climáticas e as implicações de todo o tipo que elas acarretarão. Interpreta o que se passa na base de quadros explicativos desactualizados, de saberes alheios que não interiorizou pela discussão política, e a sua prática organizativa - se a há - é reconduzida a reflexões e preceitos pensandos no princípio do século XX (é o caso do centralismo democrático). A esquerda não tem autonomia intelectual, e por isso não tem autonomia política face às diferentes soluções "tecnocráticas" alternativas com que é confrontada - ou as aceita acriticamente, ou as repudia acriticamente.














Uma ideologia de esquerda complexa e actuante necessitaria de ser alimentada pela discussão política interna às organizações, por práticas transformativas, pelos contributos das ciências sociais, por uma atenção cuidada às outras ciências, por uma reflexão crítica da sua prática histórica (da prática de toda a esquerda - a ausência disso, por exemplo, em relação ao que se passou quanto à experiência no Leste, é tão má para a esquerda socialista, como o é para a esquerda comunista). Ora, isto não é mais do que reproduzir agora, aquilo que era a prática da esquerda no século XIX e princípio do século XX - eles discutiam; eles estudavam; eles organizavam; eles militavam; eles convenciam; eles discutiam o momento; eles tentavam transformar o Mundo...













A ideologia das esquerdas actuais, por tudo isso, ou é a dos bons sentimentos, ou é a da explicação do mundo por algo que foi relevante há muito.










Daí, iniciativas como a apadrinhada por Manuel Alegre e pelo Bloco de Esquerda, nunca darão em nada, de um ponto de vista da criação de respostas alternativas, de respostas adequadas, de respostas de esquerda aos problemas (prementes) de transformação das nossas sociedades. Podem ter efeitos no jogo eleitoral, mas para além disso, são totalmente vazias de conteúdo e de efeitos concretos (ver Vital Moreira em Causa Nossa).










Um exemplo: o Expresso da semana passada refere que um dos intervenientes no fórum "Democracia e Serviços Públicos", João Semedo, deputado do BE, fala da necessidade de "uma gestão [hospitalar] por resultados clínicos em vez de resultados financeiros", ou parafraseando (ironicamente): a Eficácia no SNS, é de esquerda; a Eficiência no SNS, é de direita. Para mais um exemplo, agora ao modo como foi discutida a questão da educação, ver: Canhoto: E é isto a renovação da esquerda? Um comentário (indirecto) ao tema do fórum, ver aquilo que diz a Secretária de Estado da Modernização Administrativa Maria Manuel Leitão Marques (trabalho excelente, até onde posso ver): Uma administração pública com futuro - DiarioEconomico.com.








E ainda ver o que diz Pedro Adão e Silva: Irresponsabilidade histórica - DiarioEconomico.com:












"... Mas, acima de tudo, a escolha do PS como principal adversário das outras esquerdas tem limitado a consolidação de uma coligação política e social que permita enfrentar com robustez alguns dos problemas que o país enfrenta, maxime as desigualdades. Há umas semanas, Rui Tavares, num artigo no Público, justificava o peso eleitoral da esquerda em Portugal com o nosso padrão de desigualdades.








Se assim é, combater as desigualdades deveria ser “uma responsabilidade histórica” e, pressupõe-se, um bom tema para o diálogo à esquerda. Será possível? Não se combatem as desigualdades de hoje com os instrumentos do passado e muito menos com uma visão fixista do papel das políticas públicas face a “forças irresistíveis”. Centrando-me apenas em três dimensões fundamentais para enfrentar com eficácia as desigualdades: precisamos de mecanismos de regulação do mercado de trabalho sensíveis à transição para uma sociedade pós-industrial; de modernizar a protecção social de modo a compatibilizá-la com as transformações demográficas e de encontrar formas inovadoras de superar o défice de qualificação dos activos.








O problema é que, por exemplo, enquanto não for abandonada a posição conservadora e retórica que trata, num típico exemplo de reflexo de Pavlov, a “flexigurança”, a sustentabilidade da segurança social ou as “novas oportunidades” para os activos como “políticas de direita”, dificilmente as esquerdas poderão conversar de modo consequente sobre o combate às desigualdades.








Ora perante a incapacidade de romper com o velho tabu, o sinal que saiu do “encontro das esquerdas” é de que o caminho a percorrer em Portugal pode ser semelhante ao percorrido na Alemanha, com a criação do Linke (uma cisão do SPD, liderada por Oskar Lafontaine, a que se juntaram outras esquerdas). Talvez valha a pena recordar as consequências do novo partido para a Alemanha: pulverização eleitoral que empurrou o país para uma situação de ingovernabilidade, que, por sua vez, levou a uma coligação de “bloco central”... ".




No entretanto, Vital Moreira lembra a diferença entre o PS e os partidos à sua esquerda (Causa Nossa). De acordo com a tipologia...


_________________________________________

(1) Em Portugal o problema agrava-se: não se pensa - (não pensa a esquerda; não pensa a direita) - afirma-o João Wengorovius Meneses, em Projectar o futuro - DiarioEconomico.com:




"... Em Portugal pensa-se pouco e mal. Num contexto de sociedades do conhecimento e de realidades crescentemente complexas, dinâmicas e interdependentes, é incompreensível que não haja, em Portugal, centros de pensamento capazes de dinamizar e catalisar novas e melhores respostas aos desafios económicos, sociais e ambientais que enfrentamos..."
















16 de dezembro de 2008

O que prometi na anterior nota...

Aí têm a transcrição da parte do artigo de Miguel Sousa Tavares, Expresso: Francamente, para que serve o PSD? que considero ser de relevar, porque (a meu ver) faz um bom juízo de realidade quanto às percepções que os cidadãos e os políticos têm de si próprios, dos outros, e da democracia.



Na verdade, é algo que não merece a devida atenção na opinião pública - é conhecido do desamor da população pela classe política; o que se escamoteia é o facto de ser convicção (objectiva - nunca subjectiva, entenda-mo-nos) da classe política, que os cidadãos são seres unidimensionais, acriançados, que se movem pela estrita satisfação das suas pulsões básicas, insusceptíveis de serem formados e informados. Essa convicação desobriga a classe política de fazer, ou de tentar fazer política de modo diferente. Ao longo dos anos da democracia, em consequência desse tipo de actuação, e como seria de esperar, o comportamento dos cidadãos acaba por se configurar exactamente de acordo com essa percepção (falta de interesse; alheamento; as pessoas não votam; as pessoas não querem saber...). A classe política desculpa-se com as atitudes dos cidadãos, que, em primeiro lugar, contribuiu para se formarem assim - vi isto no debate do Portugal Direct em que participei, há dias atrás (aqui).

A transcrição:


  • "Eu sei que a política - e a política de oposição - tem de continuar a ser feita todos os dias, com crise ou sem crise. Mas talvez o que esteja errado seja a cultura de oposição entre nós e a própria forma de fazer política. Um estudo recentemente divulgado diz que só 28,5% dos eleitores portugueses estão satisfeitos com a democracia. O número é, sem dúvida, chocante, mas deve ser visto no seu contexto e o contexto é a maneira de pensar do Zé Povinho. Os portugueses confundem a qualidade da democracia com várias outras coisas que não têm que ver com isso: a sua situação pessoal, a situação económica, a qualidade da representação política. A democracia não governa necessariamente melhor nem pior do que a ditadura, nem resolve melhor ou pior os problemas pessoais de cada um ou a situação económica - embora haja vários estudos que comprovam que, em África, por exemplo, os países economicamente mais desenvolvidos são aqueles onde a democracia está também mais implantada. Mas o que a democracia tem de diferente da ditadura é que os erros, a má governação, a corrupção, são publicamente expostos e livremente criticados e a todo o tempo pode-se punir politicamente os responsáveis e mudar o pessoal.
    A qualidade do pessoal político e os seus usos e costumes é o que determina a qualidade da democracia - e esse é o segundo erro de análise política do português comum, quando interrogado em inquéritos destes. O português acha sempre que o país se divide entre 'eles' - os políticos - e 'nós', os eleitores. E que 'nós' somos infinitamente melhores, mais puros e mais honestos do que 'eles' - os quais, sem excepção, só vão para a política para se servirem e não para servirem o país. O português comum, em auto-retrato, é um cidadão exemplar: trabalha que se desunha, nunca faz ronha nem mete falsas baixas, não aldraba o patrão nem os vizinhos, não esconde um euro dos impostos, preocupa-se com a comunidade, pensa sempre primeiro nos interesses do país antes de pensar nos seus próprios. Mas, desgraçadamente, é servido por políticos que são o oposto disto. Por isso, não está 'satisfeito' com a democracia.
    Em retribuição, o grosso da classe política tem tanta consideração pelo povo quanto o povo tem por eles. A diferença é que não alimenta falsas ilusões: sabe que representa o espelho fiel da nação, que, aliás, lhe cabe representar. O que é grave , no tal estudo, não é, pois, que menos de 30% dos eleitores se declarem satisfeitos com a democracia; é que só 60% dos deputados digam isso também..."

24 de novembro de 2008

Correia de Campos sobre Manuel Alegre

António Correia de Campos comenta a entrevista de Manuel Alegre, e explana o que deveria esperar-se do mesmo. Penso que espera demasiado, e penso que não haverá tanto ingenuidade como isso na sua trajectória recente.

Podem ver o artigo completo em A entrevista - DiarioEconomico.com.

Transcrevo a parte final do artigo:
  • "A pessoa de Alegre é incontornável, o que lhe acarreta imensas responsabilidades. Pede-se-lhe análise objectiva, não apenas comentário de conjuntura; solidez de argumentos, não apenas posicionamentos; alternativas, não apenas críticas; perspectiva estratégica, não apenas referência a esperanças de mudança; política de alianças para a governabilidade, não apenas simpatias de circunstância; postura construtiva, não apenas capital de queixa. Surpreende a ausência de qualquer posição estruturada sobre as políticas públicas de natureza social, levando a recear que prefira o imobilismo. Defende o controlo das contas públicas, mas não parece aceitar que ele só foi possível com ganhos de eficiência e esforço de sustentabilidade na saúde, na educação, na fiscalidade, na segurança social, na administração pública. Ao primeiro rugir das corporações ou dos interesses, Alegre coloca-se contra as reformas, sem entender a ligação inversa entre ambas. Ignora as escolhas que é necessário fazer todos os dias, entre manter tudo como estava, ineficaz, ineficiente, dispendioso, sem qualidade nem futuro, ou escolher o árduo caminho dos cortes na gordura, da reorientação do gasto, da prevalência do interesse público sobre o interesse de pessoas, grupos, profissões ou corporações.
    Alegre necessitaria do triplo do orçamento para governar. Assim todos seriam felizes, embora o país se projectasse na falência.
    Mas o que mais surpreende num político com a sua história e experiência é a ingenuidade com que se dispõe a pactuar com parceiros que nunca pretenderão governar, formatados para criticar, corroer, maldizer e impedir um governo à esquerda. De resto, reduz tudo a uma só aliança, com o BE. Entenderá Alegre, que pode aspirar a nova candidatura à Presidência, só com o BE, os independentes dos blogues, o PC a engolir mais um sapo, o PS por arrasto, a completar a aritmética de maioria? Com parceiros que se servirão dele como megafone do protesto, descartando-o, depois, por falta de pilhas?"