14 de março de 2008

Comércio e guerra no segundo milénio

" A feature of the book that may strike some economists as odd or surprising, but will seem entirely commonplace to historians, is its sustained emphasis on conflict, violence, and geopolitics... For much of our period the pattern of trade can only be understood as being the outcome of some military or political equilibrium between contending powers"
"Like most mainstream economists, we view inventiveness and incentives, rather than sheer accumulation, “primitive” or otherwise, as being at the heart of growth, but this does not imply that European overseas expansion should be written off as irrelevant. Plunder may not have directly fueled the Industrial Revolution, but mercantilism and imperialism were an important part of the global context within which it originated.... Violence thus undoubtedly mattered in shaping the environment within which the conventional economic forces of supply and demand operated...."

Crise económica nos EUA é sinónimo de crise económica mundial?

A conjuntura económica, particularmente em situações como a que vivemos, é sempre uma mistura de déjà vu e do inesperado. A razão é simples: existem regularidades no comportamento das variáveis macro e microeconómicas face a estímulos e incentivos similares; mas, a contrário, o contexto é histórico; o enquadramento, institucional e internacional, altera-se; existe mudança tecnológica; etc. Por um lado, existem situações conjunturais semelhantes a ocorridas no passado, e é possível, na base dos erros cometidos e do que se aprendeu com eles, dar resposta eficaz e atempada (e.g., a crise de 1929 versus as seguintes); mas, existe, sempre, a possibilidade, que o cocktail de evoluções, de influências e decisões que formatam uma dada situação conjuntural, origine o inesperado (e.g., a estagflação na década de 70).


A dúvida em relação ao presente, é a de saber até que ponto os remédios habituais da política económica resolvem ou não, de modo eficaz e com custos sócio-económicos "normais", a actual crise norte-americana (isto é, a dúvida reside - lido de outra forma - no grau de "novidade", de "inesperado", que a conjuntura comporta) - a comprová-lo, temos a discussão acessa sobre o que deve ser feito. Uma outra questão, na mesma linha, tem a ver com a capacidade de contaminação que a crise norte-americana terá sobre o resto da economia mundial - aqui, também, a questão está longe de estar resolvida na percepção dos economistas do que se passa, na medida, em que se questiona, de novo, se o nivel de "novidade" presente na economia mundial (e.g., a Zona do Euro e as economias emergentes) será suficiente para esperarmos o decoupling (a separação) da evolução da economia norte-americana e a do resto do mundo.
O conjunto de artigos inventariados aqui abordam esta segunda questão (ver outras notas sobre esta matéria sob a etiqueta conjuntura económica). Como é bom de ver, esta é muito importante para a Europa e para o país:

  • Emerging markets The decoupling debate Economist.com: "A severe recession in America could still have a nasty impact on the developing world if commodity prices collapsed and if it caused stockmarkets to fall more steeply, depressing global consumer and business confidence. A sharper fall in the dollar could also further squeeze emerging economies' exports. But for perhaps the first time ever, developing countries would be able to make full use of monetary and fiscal policy to cushion their economies. In the past, when they were net foreign borrowers, capital inflows tended to dry up during global downturns as foreign investors shunned risky assets. This forced governments to raise interest rates and tighten fiscal policy. Economies with large external deficits, such as South Africa, Turkey and Hungary, are still vulnerable. But most emerging economies now have a current-account surplus and large foreign reserves; many have a budget surplus or are close to balance, leaving ample room for a fiscal stimulus if necessary."
  • Foreign Policy: The Recession Felt Around the World: "In an era of globalization, no country is immune when the United States falls onto hard times. Here’s a look at how economies elsewhere will fare."
  • Pop! Free exchange Economist.com: "Other signs demonstrate the resilience of the global economy. European exports haven't withered, despite an epic rise in the European currency. The bellwether Baltic Dry Goods index has come off its January lows and isn't looking back. And critically, the top performing American corporations are those with substantial overseas exposure:"
  • Above the fold Free exchange Economist.com: "A strong euro isn't placing too large a burden on Germany's economy. German exports increased 3.8 percent in January, helping to buoy the Eurozone economy. France and Italy also surprised economists with positive industrial data this week, welcome news given the European Central Bank's committment to steady interest rates."

Incerteza, risco e actuação dos Bancos Centrais

"Uncertainty is a measure of our ignorance. Risk is what remains when we know everything at can be known."

Frase de Edmund Phelps, citada no Economist's View, numa referência a um artigo daquele no WSJ, Risk, Uncertainty, and Macroeconomic Policy, sobre a actuação do FED na actual conjuntura económica (ver aqui - ou a partir daí - outras abordagens sobre a mesma questão). O artigo é muito interessante.



O Economist's View explica o artigo: "Edmund Phelps says this distinction [a referida em primeiro lugar nesta nota] helps to explain why monetary policy rules and financial engineering based upon the neoclassical model, which relies upon the mistaken idea that we face known, quantifiable risks, are not holding up very well in the current environment where there is uncertainty about the nature of the risks that market participants face. Given this, what would he do different? Instead of lowering interest rates to combat unemployment, accept that the natural rate of unemployment has increased recently, and raise interest rates to prevent inflation"
PS(1): Paul Krugman questiona-se se o FED conseguirá, só por si, dar conta do recado. Ver em Betting the Bank - New York Times e conclui "I used to think that the major issues facing the next president would be how to get out of Iraq and what to do about health care. At this point, however, I suspect that the biggest problem for the next administration will be figuring out which parts of the financial system to bail out, how to pay the cleanup bills and how to explain what it’s doing to an angry public."

Sinais da globalização

Há alguma coisa na tese deste livro, The Global Power Elite and the World They Are Making, criticado na Salon Books - mais que não seja dá conta de um sinal dos tempos. Dois excertos: um, para sintetizar a tese; dois, uma referência a um jantar na casa de um ministro do Chile (gostei desta):


"Rothkopf's credible, if not especially original argument in 'Superclass' is that over the past several decades a 'global elite' has emerged whose connections to each other have become more significant than their ties to their home nations and governments. They schmooze regularly at conferences like Davos, go to the same schools, serve together on corporate and nonprofit boards, and above all do business with each other constantly -- to the point that they have become a kind of culture in themselves, a 'class without a country,' as Rothkopf puts it. Furthermore, these people are 'the new leadership class for our era.'"


"Taking a dinner party at the home of Chile's finance minister, Andres Velasco, as an example, Rothkopf describes his uneasy response to the oligarchs around him. He realizes that they embrace the market-oriented philosophy of the "Chicago Boys," Milton Friedman's University of Chicago disciples, but only so long as the attendant suffering is limited to Chile's lower classes. They quietly resist reforms that might nibble away at their iron control of the nation's industries. "While many of the most powerful people in the country embrace 'progress,'" Rothkopf observes of Chile, "they use their energy and political capital primarily on behalf of the changes that benefit them most directly. Elites in Chile have implicitly or explicitly resisted the changes that might create more competition, more entrepreneurship, more access to capital for the poor and middle classes." As a result, though Chile is touted as Latin America's great economic success story, profound inequities in its society have gone comparatively unchanged."

Procura mundial de energia nos próximos 25 anos

A procura mundial de energia irá crescer 60 % nos próximos 25 anos.

- Citado em Energy Trends & Technologies: Regent's Lecture at UC-Berkeley - Scitizen

13 de março de 2008

Partido Socialista

Pedro Adão e Silva caracteriza o Partido Socialista, face à sua história e ao momento político, no Diário Económico, em Um partido sem massas. Como sempre o artigo é muito interessante; historia bem como surgiu o Partido e as consequências positivas e (algumas) negativas que daí decorrem. Estou de acordo em grande parte com o que diz mas diria mais alguma coisa, não no que respeita à sua relação com as "massas" mas ao modo como se relaciona (e as consequências disso) com os próprios militantes e simpatizantes e à sociedade.

A teoria do comércio interestelar

É por estas e outras que me orgulho de ser economista: Paul Krugman sobre a Teoria do Comércio Interestelar, em Economics: the final frontier - Paul Krugman - Op-Ed Columnist - New York Times Blog. Ele explica: "Thirty years ago I was an oppressed assistant professor, caught up in the academic rat race. To cheer myself up I wrote — well, see for yourself. Joshua Gans of the University of Melbourne scanned a copy of the thing I wrote — back then academics did their work with typewriters, abacuses, and stone axes — and was good enough to send me a copy. Ladies and gentlemen, I give you The Theory of Interstellar Trade."

Educação em Portugal (VII)

O que acontece lá fora? Nomeadamente, naqueles países que se posicionam melhor nos rankings internacionais? Em anteriores notas, houve referências às experiências estrangeiras (ver aqui e aqui). Trazemos hoje, aqui, notícia de duas experiências: a finlandesa e a norte-americana. A experiência finlandesa, referida naquelas notas, no domínio da educação, é excepcional e atípica; a norte-americana tem problemas conhecidos. O que se pode retirar das suas experiências? As diferenças de contexto, nacionais e locais, têm de ser consideradas (e serão determinantes em muitos casos); por isso, as experiências só devem servir de comparação para ajudar à emissão de juízos de realidade; mas não autorizam a desconsideração da importância dos exemplos exteriores - estes serão outros tantos inputs informativos e de reflexão, a ajudar à determinação de soluções próprias.










A experiência finlandesa é retratada num artigo do Wall Street Journal, What Makes Finnish Kids So Smart?. Excertos (o artigo deve ser lido na íntegra):





The academic prowess of Finland's students has lured educators from more than 50 countries in recent years to learn the country's secret, including an official from the U.S. Department of Education. What they find is simple but not easy: well-trained teachers and responsible children. Early on, kids do a lot without adults hovering. And teachers create lessons to fit their students. "We don't have oil or other riches. Knowledge is the thing Finnish people have," says Hannele Frantsi, a school principal.















Finnish educators believe they get better overall results by concentrating on weaker students rather than by pushing gifted students ahead of everyone else. The idea is that bright students can help average ones without harming their own progress.










Teachers must hold master's degrees, and the profession is highly competitive: More than 40 people may apply for a single job. Their salaries are similar to those of U.S. teachers, but they generally have more freedom. Finnish teachers pick books and customize lessons as they shape students to national standards. "In most countries, education feels like a car factory. In Finland, the teachers are the entrepreneurs," says Mr. Schleicher, of the Paris-based OECD, which began the international student test in 2000.









One explanation for the Finns' success is their love of reading.







Aquilo que pode ser feito para melhorar os resultados educativos nos EUA é discutido neste artigo do New York Times, Our Schools Must Do Better. Excertos:













Professor Kane and I were discussing what he believes are the two areas that have the greatest potential for radically improving the way children are taught in the U.S. Both are being neglected by the education establishment.












The first is teacher quality, a topic that gets talked about incessantly. It has been known for decades that some teachers have huge positive effects on student achievement, and that others do poorly. The positive effect of the highest performing teachers on underachieving students is startling. What is counterintuitive, but well documented, is that paper qualifications, such as teacher certification, have very little to do with whatever it is that makes good teachers effective.... rather than the demonstrated effectiveness — or ineffectiveness — of teachers in the classroom. New forms of identifying good teachers and weeding out poor ones — by carefully assessing their on-the-job performance ...This can be done without turning the traditional system of teacher tenure on its head. Studies have clearly shown that the good teachers and the not-so-good ones can usually be identified, if they are carefully observed in their first two or three years on the job — in other words, before tenure is granted...




The second area to be mined for potentially transformative effects is the wide and varied field of alternative school models. We should be rigorously studying those schools that appear to be having the biggest positive effects on student chievement. Are the effects real? If so, what accounts for them?







Ártico e globalização

O blogue Free exchange (Economist.com) refere, em Feeling a chill, a discussão das consequências, de todo o tipo, da abertura do Ártico à navegação internacional, caso a tendência para o desaparecimento do gelo continue (ver a referência ao mesmo assunto no artigo de Javier Solana sobre as consequências do aquecimento global: aqui).



Um número interessante: "... at the massive cost of international shipping--a single container ship voyage can cost over $17 million..."

12 de março de 2008

A era de Friedman

Andrei Shleifer cunhou a expressão d' A era de Friedman para designar as últimas décadas, já que nelas se verificou, a nível mundial, um significativo progresso sócio-económico, radicado, em sua opinião, na aceitação teórica e prática dos preceitos defendidos por aquele economista.



Ricardo Reis, no Diário Económico, em A era de Friedman, comentou o artigo, aceitando em grande parte essa tese, qualificando-a no que respeita à evolução político-económica da China e da Índia. Também, no Diário Económico, João Wengorovius Meneses, em E agora, Ricardo Reis?, a contrario, nega a idéia do avanço sócio-económico ter sido, nesse período, tão arrebatador, invocando um estudo do “Center for Economic and Policy Research” denominado “The Scorecard on Development: 25 Years of Diminished Progress” e a opinião de Joseph Stiglitz. Pranab Bardhan e Dani Rodrik tinham já referido a tese, de modo crítico (ver aqui).

Fiquei com a impressão que Costa Neves tinha falado disso no Açoriano Oriental - referiu Ricardo Reis na crónica de 6 de Março - mas não consegui descobrir o AO onde tal tivesse sucedido.

Finalmente, J. Bradford DeLong, em Time to declare the end of the Age of Friedman, num jornal de Taipei, aborda também o tema. Qualquer dos artigos deve ser lido na totalidade. Excertos do artigo de Bradford DeLong:

"Friedman adhered throughout his life to five basic principles: strongly anti-inflationary monetary policy; a government that understood that it was the people's agent and not a dispenser of favors and benefits; a government that kept its nose out of people's economic business; a government that kept its nose out of people's private lives; and an enthusiastic and optimistic belief in what free discussion and political democracy could do to convince people to adopt principles one through four. "



"But I say yes in part to the "Age of Friedman" proposition, because only Friedman's set of principles self-confidently proposed both to explain the world and to tell us how to change it. Still, I would build up a counterbalancing set of principles, because I believe that Friedman's principles do not, ultimately, deliver what they promise..."



"...Nevertheless, the distribution of economic welfare produced by the market economy does not fit anyone's conception of the just or the best. Rightly or wrongly, we have more confidence in the correctness and appropriateness of political decisions made by democratically elected representatives than of decisions implicitly made as the unanticipated consequences of market processes.

"We also believe that government should play a powerful role in managing the market to avoid large depressions, redistributing income to produce higher social welfare, and preventing pointless industrial structuring produced by the fads and fashions that sweep the minds of financiers."



"Indeed, there is a conservative argument for social-democratic principles. Post-World War II social democracy produced the wealthiest and most just societies the world has ever seen. You can complain that redistribution and industrial policy were economically inefficient, but not that they were unpopular. It seems a safe bet that the stable politics of the post-war era owe a great deal to the coexistence of rapidly growing, dynamic market economies and social-democratic policies."



"Friedman would say that, given the the world in 1975, a move in the direction of his principles was a big improvement. When I think of former US president Jimmy Carter's energy policy, Arthur Scargill at the head of the British mineworkers' union and Mao's Cultural Revolution, I have a hard time disagreeing with Friedman about the world in the mid-1970s. But there I would draw the line: While movement in Friedman's direction was by and large positive over the past generation, the gains to be had from further movement in that direction are far less certain."







Educação em Portugal (VI)

A OCDE produz e publica comparações do funcionamento, da despesa e dos resultados dos sistemas de educação dos países industrializados (ver aqui). Não consultei (ainda) esses trabalhos mas eles têm sido ecoados por diversos comentadores - a imagem que fica não é nada boa para o sistema de educação português e sublinha a necessidade imperiosa de se alterar estratégias, procedimentos e atitudes. Esta é a avaliação pura e dura, e está feita - é desta avaliação que todos nós deveríamos ter medo, e que nos deveria obrigar a descer à rua, em manifestação. Têm aqui três exemplos:











Para quem ainda tenha dúvidas quanto à causa última dos problemas sérios que este país enfrenta, sugiro que atentem aos números mais recentes sobre educação avançados pela OCDE para 2005, publicados há duas semanas.Segundo essa fonte, 59% da população portuguesa em idade activa concluiu apenas a escola primária; 15% fez o 9º ano; 13% chegou ao 12º ano; 13% resistiu até à educação universitária. Para se ter uma ideia da dimensão do atraso, basta notar que 29% da população na União Europeia tem o equivalente ao 9º ano, 44% concluiu o 12º ano e 24% tem formação universitária.





O bem conhecido problema de abandono/insucesso escolar continua de pedra e cal – 47% da população em idade de conclusão do ensino secundário não obteve a respectiva qualificação. Menos conhecido é o facto de a situação ser pior do que em 1995, quando aquela fracção se situava nos 33%. A impiedosa média europeia (14%) não deixa margem para dúvidas quanto à profundidade do fosso. Segundo as minhas contas, em 2005, a população portuguesa em idade activa tinha 7,5 anos de escolaridade. Segundo contas da OCDE, em 1970, esse valor cifrava-se nos 6,5. A Alemanha em 1998 ia já nos 13,5, o que implica que ao ritmo das últimas três décadas e meia (crescimento médio anual de 0,376%) Portugal deve chegar ao patamar alemão sensivelmente daqui a 158 anos…admitindo que o patamar alemão não se altera…



No ensino superior, as coisas também não parecem estar melhores. Segundo alguns indicadores da OCDE, Portugal é dos países onde o estatuto sócio-económico dos pais mais condiciona o prosseguimento de estudos dos filhos. Os últimos dados apontam para uma sobre-representação de filhos de licenciados a frequentar o ensino superior 3,2 vezes superior ao seu peso na população.Aceite que o panorama educativo português continua hoje no registo dos últimos 30 anos, i.e. medíocre e sem sinais de mudança, importa perceber o que se perde com este estado de coisas.





Os econometristas do crescimento económico estimam que o aumento de 1 ano de escolaridade média da população produza um efeito positivo no PIB ‘per capita’ a longo prazo na ordem dos 3%-6% (valores suportados por amostras com escolaridade média em torno dos 10 anos). Os estudiosos da Economia do Trabalho, debruçados sobre a ligação entre escolaridade, salários e produtividade do trabalho tendem a apresentar resultados em linha com esta estimativa. A taxa de retorno de um ano adicional de escolaridade, segundo estes investigadores, cifra-se entre 5%-15% (a média na UE anda nos 8%). Quando se multiplicam estes valores pelo peso dos salários no produto (aproximadamente 70%) obtêm-se resultados similares aos dos estudos sobre o crescimento económico.Os benefícios em Portugal são particularmente pronunciados. Um licenciado típico recebe 79% mais do que um trabalhador que apenas concluiu o secundário (diferença apenas superada na Hungria e na República Checa). Um trabalhador que apenas completou o ensino básico, em média, recebe 57% do salário de quem tem o 12.º ano (em nenhum outro país é tão penalizado em termos de rendimento). Em ambos os casos a disparidade vem a agravar-se ao longo dos anos.




Os tentáculos da nossa educação medíocre fazem até notícia lá fora. Sobre os 62.200 emigrantes portugueses no Reino Unido soube-se na passada semana que, em média, terminaram o ensino aos 16,5 anos (os mais precoces a abandonar o sistema de ensino entre 26 comunidades de emigrantes); são antepenúltimos no salário médio que auferem (£8,1 por hora; os norte-americanos levam para casa £17,1); penúltimos em impostos e contribuições para segurança social (£89 por semana; os norte-americanos pagam £281,6); 40% vivem em habitações sociais geridas pela autarquia local; e 8% estão no desemprego.




Resultado final: colegas de trabalho (os autores do estudo) a olharem para mim com ar perplexo de quem não encontra explicação para o facto de Portugal, nestas matérias, se desviar sistematicamente do comportamento dos restantes países europeus e alinhar com os níveis de países tipo Bangladesh, Paquistão, Gana, Somália ou Uganda.














"Salários dos professores na UE-15, 2002 Fonte: OCDE, Education at a Glance, 2004: Portugal é o país da UE-15 em que os professores do 1.º ciclo, após 15 anos de experiência, mais ganham, por progressão automática, em relação à riqueza nacional. Portugal é o terceiro país da UE-15 em que os professores do ensino secundário, após 15 anos de experiência, mais ganham, por progressão automática, em relação à riqueza nacional (só superado pela Alemanha e pela Holanda). Portugal é o segundo país da UE-15 em que os professores do 1,º ciclo mais progridem salarialmente nos primeiros 15 anos de experiência (apenas superado pela Irlanda). Portugal é o país da UE-15 em que os professores do ensino secundário mais progridem salarialmente nos primeiros 15 anos de experiência. http://www.oecd.org/document/…"


P. - Tem dito que o estado do ensino é uma das suas preocupações fundamentais. Porquê?R. - Primeiro, porque é um factor importante para o crescimento económico, apesar de não ser, nem de perto nem de longe, o único. Mas hoje considera-se internacionalmente que uma pessoa que não tem o 12º ano não serve muito para a vida activa. Ainda recentemente um empresário da construção civil me dizia que os seus empregados de Leste eram melhores do que os portugueses porque um indivíduo com o 12º ano arruma melhor os tijolos, organiza melhor o trabalho, do que alguém sem estudos. Nunca tinha pensado nisto... P. - É porque têm mais ginástica de pensar...R. - Exactamente. Ora, em Portugal, entre os 24 e os 65 anos, só 20 por cento dos portugueses têm o 12º ano - na Europa a média é 67 por cento. Até a Turquia está à nossa frente. E já não é só herança do passado: hoje mais de metade dos alunos não acabam o 12º ano e muitos nem sequer o básico. Assim nunca recuperaremos a "herança do passado" e nos aproximaremos da média europeia. Ora o que é que vai ser o país no futuro com uma população desta? Mais: se olharmos para a qualidade, os exames comparativos, os PISA, mostram que atrás de nós, nos países estudados, só ficam o México e o Luxemburgo, e este por causa da percentagem de imigrantes, muitos deles portugueses.

P. - É por investir pouco? R. - Não. Nós já gastamos com a educação mais do que a média da OCDE. Temos 30 por cento de professores a mais em relação à média e as turmas mais pequenas dos 27 países comparados. Temos o menor número de aulas para os alunos e as menores cargas horárias para os professores. Por fim, sobretudo no fim da carreira, temos alguns dos professores primários mais bem pagos da Europa. Mais: nunca ninguém me explicou porque é que não há concursos verdadeiros para professores, porque é que se utilizam as notas das universidades venham, eles de uma escola boa e exigente ou de uma universidade manhosa e perdulária nas notas. Isto resolvia-se bem com um teste: porque é que não se resolve? E o que é que anda um aluno a fazer matemática no 10º ano se não teve aproveitamento no 8º e no 9º? Anda a fazer com que os seus colegas não aprendam como podiam aprender, porque o professor tem de se ocupar dele em vez de puxar pelos outros. Por fim, ainda se andam a formar mais professores quando não há lugar para eles, gasta-se o dinheiro todo com salários e não se compram computadores. É um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje.
























































Europe ♥ Obama

Como é que um conservador europeu vê a simpatia dos outros europeus por Obama? Vejam no City Journal, por Guy Sorman, Europe ♥ Obama: "Europe’s media and left-wing intelligentsia see Barack Obama as the most appealing candidate for the U.S. presidency. He exemplifies what the French leftist magazine Le Nouvel Observateur calls “the America we like.” Most Europeans deny that they’re anti-American; they argue instead that there are two Americas—the good and the bad. Michael Moore is a good American, honored with the Cannes film festival’s highest prize in 2006 for his anti-Bush fantasy documentary Fahrenheit 9/11. Other good Americans include Robert Redford, Mia Farrow, Noam Chomsky, Barbra Streisand, and Philip Roth. Charlton Heston and Billy Graham are bad—as bad as McDonald’s—and so, of course, are President George W. Bush and Vice President Dick Cheney."


Tem piada a opinião (e as razões que invoca são esclarecedoras - os europeus gostam de minorias logo que não estejam no seu território; gostam de pacifistas; gostam de serviços nacionais de saúde; não gostam da pena de morte; Obama seria reservado em relação à sua fé e tal é valorizado pelos europeus que gostam do secularismo) embora, esqueça, o facto da simpatia pelos candidatos democratas (em particular, por Obama, admito-o) ser geral, a nível mundial, o que diz alguma coisa sobre o modo como os EUA são percepcionados neste momento - e a importância disso deveria ser, politicamente, incontornável e preocupante para qualquer amigo dos EUA.

Astronomy Picture of the Day - 12 de Marco: Região de formação de estrelas


Explanation: How do stars form? To better understand this complex and chaotic process, astronomers used the Hubble Space Telescope to image in unprecedented detail the star forming region LH 95 in the nearby Large Magellanic Cloud galaxy. Usually only the brightest, bluest, most massive stars in a star forming region are visible, but the above image was taken in such high resolution and in such specific colors that many recently formed stars that are more yellow, more dim, and less massive are also discernable. Also visible in the above scientifically colored image is a blue sheen of diffuse hydrogen gas heated by the young stars, and dark dust created by stars or during supernova explosions. Studying the locations and abundances of lower mass stars in star forming regions and around molecular clouds helps uncover what conditions were present when they formed. LH 95 spans about 150 light years and lies about 160,000 light years away toward the southern constellation of the Swordfish (Dorado).





11 de março de 2008

Frases

"O socialismo colapsou por não ter deixado o mercado contar a verdade económica; o capitalismo pode colapsar por não deixar o mercado contar a verdade ecológica."
- Citado por Lester R.Brown

Aquecimento global: o que deve fazer a União Europeia

Javier Solana, no Comment is free (Guardian), em Before the flood, refere que há que dar resposta à necessidade de mitigação, de adaptação, e às ameaças de segurança, colocadas pelas consequências do aquecimento global; enuncia alguns dos perigos colocados por aquele; e propõe linhas de actuação estratégica à União Europeia (conclui dizendo que o debate científico sobre o aquecimento global está encerrado - pois! existe muita gente distraída por este mundo fora):




"Let me highlight just three of the threats posed by climate change:




  1. Conflict over resources is one of them, especially where access is politicised. A reduction of arable land, widespread shortage of water, diminishing food and fish stocks, increased flooding and prolonged droughts are all set to increase in many parts of the world. Water shortage in particular has the potential to cause civil unrest. Africa is the most vulnerable continent to climate change because of multiple stresses and low adaptive capacities.

  2. Second, increased migration. The UN predicts that there will be millions of "environmental" migrants by 2020 with climate change as one of the major drivers. Such massive migration flows are likely to increase conflicts in transit and destination areas. This may lead to greater tensions between different ethnic and religious groups and political radicalisation.

  3. And third, what happens to oil, gas and fishing resources if borders and territories change, or disappear beneath the sea? Can the rights and responsibilities of a country exist with no landmass, as is predicted for some Pacific islands? What happens if the Northwest passage becomes permanently passable? If handled well, this is a huge opportunity. But without an agreed international framework, as is, for example, the case in the Arctic, on how to assess and adjudicate territorial claims, political tensions are bound to rise.

"What are we proposing?

  1. First, to build up EU capacities across the board: from monitoring and early warning, to conflict prevention, crisis management and disaster response. If we agree as EU that the security impact of climate change is real and affecting our own interests then we should make the necessary financial resources available.
  2. We should also develop "carbon diplomacy". We need to do more focused research and shared analysis with partners on what the security hotspots will be and how we can best tackle them together. In all our relationships - from Africa to the Middle East, from Latin America to Central Asia and beyond - we should raise awareness about the security effects of climate change and build capacity in those countries that will be hit hardest.
  3. Third, we need to see whether existing rules of the game are "climate-proof". With rising waters and melting sea ice, there is an increasing need to address the growing debate over territorial claims, exclusive economic zones, and access to new trade routes. There might be a need to strengthen existing rules of international law such as the Law of the Sea. Some countries that are extremely vulnerable to climate change are also calling for international recognition of environmentally induced migration."

Eficiência energética - o caso do Japão

O Japão tem estatísticas que me surpreedem (um exemplo: ver aqui) - a surpresa poderá significar ausência de conhecimento da minha parte, note-se, mas em todo o caso, as que são referidas neste artigo do Washington Post, Oil Price Rise Causes Global Shift in Wealth, merecem realce. Têm a ver com a evolução da dependência do Japão em relação ao petróleo e aos seus ganhos de eficiência nas últimas décadas. O artigo tem informação interessante sobre o que o seu título indica. O excerto:

"Highly developed consumer nations have been better able to adapt. In Japan, which relies on imports for nearly 100 percent of its fuel, nearly everyone is a loser -- with the big exception of Toyota.

Yet Japan has been weaning itself off oil for years. It now imports 16 percent less oil than it did in 1973, although the economy has more than doubled. Billions of dollars were invested to convert oil-reliant electricity-generation systems into ones powered by natural gas, coal, nuclear energy or alternative fuels. Japan accounts for 48 percent of the globe's solar-power generation -- compared with 15 percent in the United States. The adoption rate for fluorescent light bulbs is 80 percent, compared with 6 percent in the United States."

Colapso

Ter em atenção o que vai sendo descoberto pela história, é, também, um modo de contrariar a complacência dos tempos. A citação abaixo de uma entrevista no New York Times, a Heidi Cullen, Into the Limelight, and the Politics of Global Warming, lembra-nos que as civilizações colapsam por outras razões que não as apontadas, usualmente, nos manuais - o livro de Jared Diamond, Collapse, é disso que trata (o bold é meu).




"For my thesis, I studied droughts and the collapse of the first Mesopotamian empire — the Akkadian civilization. I was able to show that a megadrought at roughly 2200 B.C. played a role in its demise. I found the proof by examining the sediment cores of ancient mud. When one looked at the mud from the period around the Akkadian collapse, one found a huge spike in the mineral dolomite. That substance is an indicator of drought.

Q: What’s the point of knowing this? A: Because until recently, historians, anthropologists and archaeologists were reluctant to say that civilizations could collapse because of nature. The prevailing theories were that civilizations collapsed because of political, military or medical reasons — plagues. Climate was often factored out. And yet, indifference to the power of nature is civilization’s Achilles’ heel."

Educação em Portugal (V)

Ainda a-propósito do relatório da Mckinsey (ver aqui) - de que tem, aliás, uma opinião crítica - Miguel Castro Coelho, no DiarioEconomico.com, em Ingredientes da Educação, discute a problemática da influência da qualidade dos professores nos resultados dos alunos, e aquilo que os melhores sistemas de ensino fazem para assegurar aquela qualidade. A parte final do artigo:





"Dessas conclusões, interessa-me aqui destacar duas mensagens fundamentais:




  • A primeira faz eco do que mais se tem ouvido ultimamente pelos corredores do Ministério da Educação Inglês: ‘teachers matter’. Por muito trivial que a mensagem possa parecer, a verdade é que só há bem pouco tempo se confirmou analiticamente a influência da qualidade dos professores nos resultados dos alunos. O senso comum há muito que apontava para isso, mas só nos últimos três anos surgiu a confirmação empírica e com ela estimativas da magnitude dessa influência.

  • Precisamente porque a qualidade dos professores conta, os tais sistemas de educação de referência desmultiplicam-se em esforços para assegurar que as pessoas mais capazes ocupem essas funções. Começam por reservar o acesso aos cursos de formação de professores para candidatos com curriculum universitário de topo e capacidade de relacionamento interpessoal, comunicação, vontade de aprender e ensinar, excepcionais. Só estes têm oportunidade de fazer formação específica que, se for feita com aproveitamento, lhes dará acesso à profissão.







  • Uma vez no exercício da profissão, o acompanhamento e a formação in loco é constante, sobretudo numa fase inicial. A capacidade de afastar as pessoas que venham a revelar pouca apetência para o cargo também é garantida, num claro reconhecimento humilde de que o sistema de selecção, apesar de tudo, não é perfeito. Se se juntar a isto uma remuneração inicial em linha com o que pessoas de formação equivalente auferem no resto da economia (’good but not great’ para usar os termos do relatório) obtêm-se, ao que parece, sistemas em que ser professor não é apenas opção para os que têm poucas outras opções.





  • A segunda mensagem importante a reter é a de que o sucesso de um sistema de ensino depende da sua capacidade de produzir impacto sobre todos os alunos. Como os alunos – e sobretudo as famílias dos alunos – não são todos iguais, há que incorporar no sistema de ensino medidas de discriminação positiva de escolas e alunos para os quais o contexto socio-económico seja um fardo significativo. Essas medidas fazem reflectir no desenho do sistema aquilo que é o princípio mais forte entre tudo o que se sabe sobre educação: o “sangue” do aluno, é a principal influência sobre o seu in(sucesso).





  • Para pôr estas medidas de discriminação positiva em prática, e para avaliar a qualidade de professores e escolas é necessário usar um modelo analítico que integre informação detalhada sobre o nível socio-económico dos alunos, a sua performance escolar, e a identidade dos respectivos professores. É por isso que não posso deixar de concluir que os juízos de valor que se fazem em Portugal todos os anos sobre a qualidade das escolas com base em ‘rankings’ “crus” de médias de notas (sempre com reparos comparativos entre público vs. privado) são simplesmente absurdos."

10 de março de 2008

Respeito pela opinião religiosa e respeito pela ciência

Como é vão as guerras culturais nos EUA? Vão estranhas, como sempre (ver aqui), embora, sempre com uma capacidade anormal de nos surpreender. É o caso relatado pelo blogue Bad Astronomy - e respecado pela RichardDawkins.net - em Oklahoma: One Step from Doom. Excertos:

"Specifically, the bill states: A school district shall treat a student's voluntary expression of a religious viewpoint, if any, on an otherwise permissible subject in the same manner the district treats a student's voluntary expression of a secular or other viewpoint on an otherwise permissible subject and may not discriminate against the student based on a religious viewpoint expressed by the student on an otherwise permissible subject.
It's the "otherwise permissible subject" phrase that's sticky. That can easily be interpreted as meaning tests, besides just normal classroom discussion.
For a long time, I have been disquieted by the fact that many people want to give patently ridiculous ideas as much standing as reality. One problem with this is that once you open the door to fantasy, any and all flavors of it can walk on through, as in the example above. But it also elevates fantasy to the same level as reality, and that is simply wrong. I taught a few classes back when I was a grad student. If someone had answered a question on a test saying the Earth was 6000 years old [idade da Terra segundo alguns fundamentalistas bíblicos], I would have marked it as incorrect. That's because — and sit down for this breaking news — that answer is wrong. The student could complain, they could take it to the dean, the president, the Supreme Court for all I care — I wouldn't have backed down. Wrong is wrong.
I don't care what your religious belief is, there are some things that are simple facts. An object with mass has gravity. A lump of lithium dropped into water will create heat and hydrogen gas. An accelerating charged particle will emit radiation. These are facts. It doesn't matter what you believe: reality is that which, when you go to sleep, doesn't go away."

Desigualdade nos EUA

O blogue Consider the Evidence escolhe em The Best Inequality Graph, o melhor gráfico para demonstrar o crescimento da desigualdade do rendimento nos EUA nas últimas décadas. O gráfico é, efectivamente, muito elucidativo (não consigo reproduzi-lo nesta blogue). A nota explica, do ponto de vista técnico, o porquê da sua escolha. Sobre o porquê da situação e sobre o seu impacto na vida sócio-económica e política dos EUA, ver, por exemplo, aqui.

Educação em Portugal (IV)

Fernando Freire de Sousa, numa coluna no Diário Económico, Má educação, chamou-me a atenção para este artigo do The Economist, Education: How to be top. Este artigo refere um relatório da McKinsey sobre a educação, How the World's Best-Performing School Systems Come Out on Top, (pode ser acedido aqui) - as recomendações são, nalguns casos, inesperadas: "...Schools, it says, need to do three things: get the best teachers; get the best out of teachers; and step in when pupils start to lag behind. That may not sound exactly “first-of-its-kind” (which is how Andreas Schleicher, the OECD's head of education research, describes McKinsey's approach): schools surely do all this already? Actually, they don't. If these ideas were really taken seriously, they would change education radically." Será desnecessário referir o interesse em ler o artigo todo - tem informação excepcional e relevante para a percepção do que está mal com a educação em Portugal.

O último parágrafo da coluna de Fernando Freire de Sousa, sintetiza alguns dos aspectos mais curiosos referidos naquele artigo do The Economist: "Nesta conformidade, o artigo acima referido avança ensinamentos pertinentes para pensar uma mudança radical na educação, quer ao contrariar ideias feitas (como as de que o sucesso dependeria do envolvimento de mais dinheiro ou da consagração de mais tempo ao estudo) quer ao apontar as três recomendações de um recente trabalho da McKinsey ... E, após revelar tópicos comuns aos países líderes – na Finlândia, os novos professores têm de dispor do grau de mestre, a profissão beneficia de um elevado estatuto social e existem fundos importantes para formação; na Coreia, os docentes primários têm de obter uma licenciatura de 4 anos em uma de 12 universidades indicadas e são recrutados de entre os 5% melhores graduados; no Japão, a reforma de um professor deixa atrás de si um “legado” –, conclui: “conseguir bons professores depende de como eles são seleccionados e formados; o ensino pode tornar-se uma escolha de carreira para graduados de topo sem se ter de pagar uma fortuna; com as políticas certas, as escolas e os alunos não estão condenados a ficar para trás.” Três boas notícias para quem não queira vergar-se a um fatalismo conservador e imobilista…"

Três notas:

  1. Para que fique claro - não tenho de modo algum a certeza se as reformas em curso na educação, em Portugal, (desconfio que será necessário muito mais - veja-se o que se passa lá fora) serão as suficientes para inverter a nossa situação calamitosa nesse domínio; serão, quanto muito, no mínimo, as necessárias para fazer arrancar o processo - por isso, não posso deixar de estar ao lado da Ministra, na defesa dos princípios que enuncia.
  2. Só vi a parte final do programa da Maria Elisa, Depois do Adeus, dedicado à Educação. Daquilo que vi, e para variar, fiquei com pena de o não ter visto por inteiro.
  3. A crónica de Nuno Tomé, no Açoriano Oriental de hoje, sobre esta temática, Avaliação, é impecável.

PS(1): Estou a por a leitura dos blogues em dia. Alguns apontamentos interessantes nesta vertente: Autoridade e hierarquia, no Blasfémias e Avaliação e burocracias no Rabbit's blog.

PS(2): Vital Moreira no Causa Nossa recomenda a leitura, no Portal do Governo, das Perguntas Frequentes sobre a Avaliação dos Professores (aqui). N'A Aba da Causa pode ler-se o seu artigo sobre a manifestação dos professores (aqui). A Causa Nossa tem um conjunto de pequenos apontamentos, e de links a outros blogues, sobre tudo isto, que merecem ser lidos.

PS(3): Uma crítica à Ministra que os professores deveriam ler e reflectir - artigo de João Miranda, no Diário de Notícias, Ensino Centralista. Isto bem poderá ser o futuro - se o sistema tal como está não der resposta. Na Educação como na Saúde, os sindicatos deveriam defender as reformas deste Governo, mais que não fosse (na sua perspectiva) como um mal menor - as alternativas poderão ser muito mais desagradáveis (na sua perspectiva). Uma dúvida - alguns sectores (como este articulista) acusam o Governo de querer manter uma estrutura centralizada na Educação, mas já ouvi a Ministra falar a favor da descentralização e da devolução de autonomia às escolas: em que é que ficamos? A aprofundar!

Mercados financeiros nos EUA: o medo

Novas notícias da conjuntura - Krugman tem medo: "The scariest thing I’ve read recently is a speech given last week by Tim Geithner, the president of the Federal Reserve Bank of New York. Mr. Geithner came as close as a Fed official can to saying that we’re in the midst of a financial meltdown." Ver em The Face-Slap Theory - New York Times.





Um reparo sobre a inovação financeira: a dado passo, diz (o bold é meu): "Last month another market you’ve never heard of, the $300 billion market for auction-rate securities (don’t ask), suffered the equivalent of a bank run."

Expansão ultramarina portuguesa no século XVI: diferenças com outras

Brad DeLong, no seu blogue Grasping Reality with Both Hands, fala da expansão portuguesa no Extremo Oriente, no início do século XVI, e das suas diferenças com a extensão ultramarina árabe e chinesa da altura, na base de citações do livro de David Abernethy (2000), The Dynamics of Global Dominance: European Overseas Empires 1415-19890 (New Haven: Yale). São referidas também as razões das diferenças verificadas na expansão europeia a oeste (Novo Mundo) e no Extremo Oriente. A última nota refere a importância mundial da batalha de Diu, em 1509. Excertos das notas:






The European Seaborne Empires I: "To Serve God, to Win Glory for the King, and to Become Rich"





"The multifaceted nature of Europe's assaults is highlighted when contrasted with the overseas activities of the Chinese and the Arabs. The ideal site for comparison would be a place distant from Europe, China, and Arabia, hence unlikely to be controlled by any of them, where people arriving by sea from all three areas were present at about the same time. That such stringent conditions could be met seems highly unlikely. But in fact they do apply to one case: Malacca during roughly the first century of [European imperalism] phase 1."












"This is a sophisticated and powerful rendition of the argument that what mattered most from 1500-1850 was the triple-threat reinforcing nature of European imperialism--the importance of all three parts of the Spanish hidalgo's explanation of why they had left Iberia: 'to serve God, to win glory for the king, and to become rich...'"











The European Seaborne Empires II: Malacca and Tenochtitlan



"Beijing... was the capital city of a powerful state lacking both an expansionist foreign policy and an expansionist religion. Mecca was the central city of an expansionist religion but not of a state. Lisbon was the capital city of a state with an expansionist foreign policy and a strong commitment to spread an expansionist religion."







"By examining actions, motivations, and institutions at a critical juncture of world history when representatives of the three leading candidates for global dominance were present at the same place and time, the case study of Malacca in 1511 tests--and supports--the book's central proposition. The Portuguese were unlike the Chinese and Arabs in the number and variety of sectoral institutions at their disposal, in the stretch of these institutions far from their home base, and in the way agents of different sectors worked together for mutually beneficial ends. The Malaccan case highlights not only the contrast between Europeans and others who might have formed equivalent empires, but also the empowering effects when cross-sectoral coalitions were assembled..."





The Battle of Diu (1509)



"One of the great might-have-beens in world history concerns the 1509 Battle of Diu. What if it had gone the other way? Or what if Sultans Beyezid II, Selim the Grim, Suleiman the Lawgiver, and Selim the Sot, and Murad III had shifted a small additional part of the military effort they were making in the Balkans and the Mediterranean into the Indian Ocean?"

Frases

"Nothing is so obvious that it's obvious. When someone says that something is obvious, it seems almost certain that it is anything but obvious - even to them. The use of the word 'obvious' indicates the absence of a logical argument - an attempt to convince the reader by asserting the truth of something by saying it a little louder."





- em Certainty and the Obvious: What It Takes to Bring in the fabled "Context" no blogue The World's Fair.

9 de março de 2008

Educação em Portugal (III)



Tenho acompanhado o debate sobre a situação das reformas da educação, em diversos fora da comunicação social, e não tenho gostado nada, do que tenho ouvido. Como uma participante do Expresso da Meia Noite admitia, (atirando as culpas para o modo como o Ministério geria as relações de trabalho com os professores), acaba por não se discutir o mais importante, que é a própria educação - e era o estado de necessidade desta, em Portugal, que deveria determinar, em primeiro lugar, os juízos de valor, de todos nós, cidadãos, sobre a actuação dos diversos intervenientes no processo.







O modo, como grande parte da "intelligentsia" portuguesa aborda a situação da reforma da educação, prima pelo desconhecimento; pela elevada sensibilidade à "conventional wisdom" destilada, em grande parte, pela comunicação social; pela atenção irrazoável à "espuma dos dias" e pela recusa de tomada de posição sobre o que está mal na educação - porque algo está mal (e se não sabem porque é que está mal - compreensível: o assunto é manifestamente complexo -, não falem).



Ouvi a Ministra da Educação e, pasme-se - sou um indivíduo atípico -, a excepção, gostei de a ouvir; impressionou-me pela consistência do que diz; pelo domínio da temática; pela razoabilidade do que propõe em termos de objectivos e de factibilidade; e pela determinação tranquila que assume. Desmontou a questão do fluxograma assustador mostrado no Prós-e-Contras e mostrou uma folha de diligências, que à distância, será mais singela (se bem me recordo) do que se passa em termos de avaliação no resto da Administração. E aquilo que diz não será contraditado como é óbvio - ataca-se sempre os homens (e as mulheres) "de palha" construídos pela "conventional wisdom" (ver aqui, noutro contexto: primeiro "tique"). MRS, que a acusa de ter conduzido (politicamente) mal o processo - meu Deus, houve cento e tal reuniões entre o Ministério e os sindicatos!, disse-o o director do Expresso, no Expresso das Nove - admite, implicitamente, que o proposto por ela é correcto, ao atribuir-lhe um conteúdo de recuo. Terá sido um recuo? Se o foi, ainda bem.







Ao ouvir a Ministra, ocorreu-me outra coisa. A ausência de partidos a cumprir o seu papel de mediadores de política, explicando, influenciando, defendendo programas, junto dos cidadãos, faz com que governos e ministros reformadores tenham que defender-se sózinhos - a Ministra tem a solidariedade do Partido Socialista: confrangedor! Deveria ter era o combate do partido, em todos os fora, em defesa e em explicação do programa do Governo (do programa do partido) - o que dá, depois, é cenas como a do António Correia de Campos a desdobrar-se em entrevistas na última semana como Ministro. A explicação (absolutamente necessária) deveria, como é natural, assentar no Governo, mas também nos deputados e nos militantes - o que obrigava, em primeiro lugar, trabalhar com eles. Os partidos, enquanto comissões eleitorais, podem funcionar assim, sem grande problema, se não tiverem uma restrição orçamental forte, e gerirem o "status quo" (esta gestão é compaginável, vamos ser correctos, com fazer muitas coisas úteis e positivas). Governos reformadores necessitam de partidos a funcionar de modo diferente - a funcionarem como partidos.



Aliás, isto chama à baila outra questão, não menos interessante: a relação dos governos (reformistas) com a comunicação social. Chamaria a atenção para duas facetas da questão. Em primeiro lugar, aquela actuação dos partidos serviria para mitigar uma característica quase genética da cobertura noticiosa - a comunicação social tende a fazer "médias" das posições em confronto, mais que não seja, como modo de se defender de possíveis acusações de enviezamento e de parcialidade (discute-se isso nos EUA - sobre a cobertura noticiosa, e.g., do aquecimento global podem aceder aqui a diferentes posições) . Essa prática, até não dá produtos de bondade duvidosa, quando as posições contraditórias são de qualidade e os interesses em causa estão devidamente identificados. Em segundo lugar, a ausência de partidos a funcionar como deve ser, reforça a necessidade - sempre presente, em todo o caso -, de um tratamento profissional específico com a comunicação social. Os governos têm de ter gabinetes e assessores de imprensa para veicular informação adequada à comunicação social - como cidadão, eu tenho medo, é das campanhas de formatação da opinião pública, feitas pela calada. A essa luz é que deve ser apreciada a atitude (tonta e demagoga) de Santana Lopes de recusar tal coisa e a de Manuel Alegre (não a qualifico) em o aplaudir por isso.

CO2 e a história climática da Terra

O New Scientist, neste artigo, Climate myths: Ice cores show CO2 increases lag behind temperature rises, disproving the link to global warming, examina o que se sabe sobre a correlação (precedência e potenciação) entre o nível de CO2 na atmosfera e os episódios glaciares e interglaciares. Simples, claro e informativo. Essa questão é, habitualmente, mal percebida e serve de bandeira aos descrentes na responsabilidade humana no aquecimento global.

8 de março de 2008

Astronomy Picture of the Day - 8 de Março: A Galáxia Sombrero



A 28 milhões de anos-luz, a Galáxia Sombrero: Astronomy Picture of the Day.

Democracia orgânica?

João Almeida Santos, no Diário Económico, em Uma democracia orgânica? discute o conceito de "consociativismo" - nascido da realidade política italiana - e a sua aplicação a dadas situações que se verificam no caso português. O artigo tem manifesta actualidade e dá para reflectir (o bold é meu) :


"Na língua italiana há uma palavra que exprime muito bem uma certa disfunção do sistema democrático representativo: “consociativismo”. Esta palavra aplica-se à repartição do poder, à ausência de alternância, à composição orgânica do poder... Cada um exercendo poderes de tipo diferente, mas organicamente integrados.


Ora, a palavra “consociativismo” pode ajudar-nos a compreender melhor aquilo que considero ser uma disfunção congénita da nossa democracia, ao ponto de a tornar mais democracia social do que democracia representativa, mais orgânica do que representativa... A nossa disfunção verifica-se, no essencial, não no interior do sistema político central, mas sim nas relações entre a sociedade civil e o poder político...

O exemplo mais evidente desta tendência “consociativa” do nosso sistema é a forma do governo autárquico, com as oposições a integrarem os executivos camarários e os executivos das freguesias a integrarem a assembleia deliberativa municipal. Mas tão evidente como isto são as prerrogativas de codecisão reivindicadas pela generalidade das organizações profissionais e até pelo terceiro poder, o poder judicial.

É evidente que o poder judicial tem vindo a dar a ideia de que se considera ele próprio colegislador, sobretudo quando se trata de matérias que lhe dizem mais directamente respeito. Por outro lado, as organizações profissionais e empresariais (ordens, sindicatos, associações) têm vindo crescentemente a evoluir do direito de participação no processo de instrução da decisão política para o direito de participação na própria decisão, ferindo, com isto, gravemente um dos princípios estruturantes da democracia. Com efeito, a decisão política exprime-se como decisão com efeitos universais, é geral e abstracta. E, como é evidente, ela deve traduzir o interesse geral. Esta decisão não pode, pois, resultar da justaposição de decisões sectoriais correspondente ao somatório dos interesses parcelares das diversas organizações da “sociedade civil”, que o poder político registaria como se de um notário se tratasse....

Ora, não é esse, apesar de tudo, o nosso modelo constitucional nem a nossa visão dominante do sistema político. E todavia até parece ser essa a prática generalizada e dominante dos nossos actores sociais. De resto, as condições para que esta prática se desenvolva e consolide até existem, sob a forma de “megafone mediático”. Com efeito, nunca como hoje as corporações tiveram instrumentos tão poderosos – os ‘media’ - para afirmarem os seus interesses no espaço público, conferindo-lhes, assim, uma aura de interesse geral. Os ‘media’ podem ser, de facto, os indutores decisivos de uma democracia orgânica de novo tipo. ...."

A-propósito do documento da SEDES

Vitor Bento comenta no Diário Económico, em O documento da Sedes, as reacções a este documento. Ainda não o li, mas a tipologia ("tiques") que apresenta das reacções, merece ser notada (o bold é meu):


"Dessas reacções notei três tiques, muito comuns, redutores de qualquer discussão séria.
Primeiro e como é frequente, muitos comentadores tocaram de ouvido, sem ler a partitura. Os comentários que se foram construindo ao longo da manhã, denotavam claramente que os seus autores não tinham lido o documento, mas comentavam o relato que dele foi sendo feito, reconstruindo-o. No final do dia, o que ia ficando no ouvido era diferente, pelo menos na intencionalidade, da versão que fora escrita. Embora nos dias seguintes comentadores mais avisados tenham tentado recentrar a discussão na versão original, ainda hoje se ouvem comentários de quem assumidamente não leu o documento.
Segundo, o poder – qualquer que seja – tende a pensar o mundo como girando à sua volta, caindo facilmente no maniqueísmo do “quem não é por mim...”. Não se dá conta de que há mais mundo e mais tempo para além dos seus. Ao cair no vício maniqueísta, acaba a dar gratuitamente o peito às balas (que não lhe são dirigidas), com consequências indesejáveis, para si e para a discussão. Polariza em si e no seu tempo, uma responsabilidade que é múltipla nos agentes e longa na duração. E, disfarçando a responsabilidade dos outros, permite-lhes cavalgar, contra si, uma onda que partirá sem direcção. Assim, em lugar de discussão de ideias, acaba-se a catalogar pessoas e a alimentar barricadas de prós e contras.
Terceiro, há muita gente para quem a vida pública não é mais do que a disputa de senhas para a mesa do Orçamento. Não conseguindo compreender que possa haver quem esteja simplesmente interessado em discutir ideias, e não as tendo para discutir, tende a ver qualquer proposta de discussão como uma ameaça ao seu lugar na fila das senhas. Daí que se concentrem apenas na destruição dos proponentes, matando qualquer possibilidade de debate.Falta, no espaço público, a serenidade para discutir racionalmente ideias e a capacidade de erguer o olhar para além da circunstância e pensar estrategicamente, a longo prazo. Talvez por isso este mal-estar difuso e esta sensação claustrofóbica onde muitos se sentem enredados."

Frases

"Pourquoi une telle crédulité ? Parce que l'époque a besoin
de mythologies, de belles légendes à faire frémir...Mieux vaut un bon mensonge
vraisemblable qu'une vérité ennuyeuse"






- Aragon, citado no Nouvel Observateur

O futuro já não é o que costumava ser... (II)

Entrevista no Nouvel Observateur a Geneviève Ferone, autora do livro: 2030 : le krach écologique. Paráfrase do título da entrevista: "Changement climatique, crise énergétique, croissance démographique se télescoperont à la même date. le compte à rebours a commencé... " O conteúdo desta entrevista pode ser comparado com outra feita pelo Guardian a James Lovelock (ver aqui).

A relevância do Estado-providência

Uma entrevista do Nouvel Observateur com Gosta Esping-Anderson sobre os problemas sociais a que o Estado-providência tem de dar resposta: L'Etat-providence n'est pas mort ! Alguns excertos (o bold é meu):

"La protection sociale passive est maintenant critiquée. Il est souvent proposé de la remplacer par des politiques d'«activation» et par un accent plus fort mis sur l'investissement social de long terme. Il faut cependant rester prudent, «activation» est devenu un mot attrape-tout à la mode, en particulier dans le domaine de la lutte contre le chômage. De nombreux travaux de recherche montrent pourtant que les programmes d'activation, comme par exemple des stages de formation professionnelle ou de requalification, ne sont pas particulièrement efficaces. La raison en est que les racines profondes des difficultés sociales remontent bien au-delà dans la biographie des individus - en premier lieu dans les conditions de leur enfance."


"Il s'agit d'une part d'offrir le plus d'opportunités possible à tous les individus tout au long de leur vie, et d'autre part de renforcer la base productive de nos sociétés. Dans le passé, on pensait que ces objectifs seraient atteints par la démocratisation de l'éducation. Nous savons maintenant qu'il s'agissait d'une vision excessivement optimiste, dans la mesure où les travaux sociologiques récents montrent que l'échec scolaire provient moins du système éducatif lui-même que de l'environnement familial."


"L'argument selon lequel faire appel au privé pour la protection sociale serait plus efficace est fondé soit sur de l'idéologie, soit sur des mythes. Permettez-moi de vous donner quelques exemples. Le Chili ..."

7 de março de 2008

Agricultura e aquecimento global

A Science Daily referencia investigação sobre diversos cenários, decorrentes do aquecimento global, com que a agricultura, à escala global, poderá ter de se defrontar, ao longo de século XXI, em Toll Of Climate Change On World Food Supply Could Be Worse Than Thought quando: "In order to keep pace with population growth, current production of grain--from which humans derive two-thirds of their protein--will probably have to double, to 4 billion tons a years before 2100."

Preocupações com o que dizem os democratas...

Segundo The Economist (já da semana passada) existem razões para se estar preocupado com o que Obama (e Clinton) dizem relativamente ao comércio internacional (NAFTA, etc.), Obamanomics Hope and fear. Esperemos que nada seja, mais do que isto: "How worrying is their populism? The sanguine—and conventional—argument is that none of it matters much. Democratic candidates always veer to the left during primaries, because that is where the votes are. But come the general election, the winner will tack back towards the centre, where the crucial independent voter resides."

6 de março de 2008

BCE: novas apreciações


No seguimento do acompanhamento que tenho feito da discussão da actuação dos Bancos Centrais europeu e norte-americano, nesta conjuntura económica (ver aqui e aqui), mais dois artigos:




  • Um é da Telos, dos economistas Wyplosz e outros, BCE: comment elle peut mieux faire, onde constatam que: "La BCE a remarquablement bien réagi à la crise du crédit depuis le mois d’août dernier. Son prestige auprès des marchés financiers en est sorti accru. C’est donc un bon moment pour revoir la stratégie, la transparence et la gouvernance." A posição é crítica em relação ao modo como o BCE comunica a sua estratégia; ao nível de transparência que permite e, finalmente, à maneira como está organizado - isso influenciaria a sua capacidade de influenciar, de forma eficaz: as expectativas dos agentes económicos e dos mercados; a estrutura das taxas de juro do médio e longo prazo e as tentações "políticas de curto prazo" de alguns dirigentes nacionais europeus.

  • O outro é uma apreciação do New York Times do BCE: In Europe, Central Banking Is Different. Interessante e informativo. Alguns excertos:
    "The Fed’s mandate, balanced between fighting inflation and encouraging full employment, leads to a simple investor calculus: if growth sags, the Fed is virtually certain to cut interest rates.
    Usefully for the Fed, which seems likely to cut its benchmark short-term rate below the current 3 percent, inflation in the United States tends to fall as demand slackens during a slowdown. And even though inflation has lately been rising to worrisome levels, the Fed appears to be counting on that rule to apply again.
    The European bank, by contrast, is skeptical of the notion that inflation automatically falls when growth cools, and it has a mandate, inherited from the German central bank, to keep prices stable above all else."

    Outro excerto:
    "But despite the statement’s awkwardness, it reflected the central bank’s poorly understood view that strong employment protections coupled with muscular labor unions and generous social benefits act as a brake on falling demand. And if higher inflation is being imported through commodity prices, any automatic link between lower growth and lower inflation cannot be taken for granted.
    Moreover, the ups and downs of the European economy — the distance it travels between strong growth and severe downturns — have been less than in the United States in recent decades. So even if recession seems imminent to some in the United States, central bankers here say, Europe need not expect a similar outcome."

    E ainda outro:
    After the end of the Internet boom and the terrorist attacks in September 2001, the European Central Bank never went as far as the Fed, which cut rates to 1 percent. Nor did it tighten rates as much as the Fed did when times got better (ver gráfico acima)."