6 de março de 2008

Ciência, Política e Religião, nos EUA

Não existe nenhum país do mundo, à excepção de alguns países muçulmanos, em que o papel da ciência, e as suas recomendações, sejam tão controvertidas, como sucede no caso dos EUA. A razão avançada para isso, usualmente, é a do peso significativo da direita evangélica na opinião pública norte-americana, e a sua influência no Partido Republicano. O facto mais evidente desse estado de coisas é a polémica (muito dura, persistente, disseminada em todo o território, e relevante, do ponto de vista político e religioso) sobre a legitimidade do ensino nas escolas, do criacionismo – visão da história do mundo assente numa leitura literal da Bíblia – ou, duma sua versão mais soft, com pretensões científicas, da denominada “teoria” do desígnio inteligente. No mesmo sentido, irá o não financiamento federal da investigação das células estaminais, etc. Se é verdade, nesses casos, ser a relação de causa e efeito entre religião, política e ciência, evidente, e suficiente para explicar a posição da direita norte-americana, noutros, como acontece quanto ao aquecimento global, a relação não existe, ou é indirecta, ou resulta de solidariedade de grupo ideológico.


Não, que não faltem explicações para a relutância da parte do Partido Republicano em aceitar a evidência científica do aquecimento global, a necessidade da promoção da eficiência energética e das energias alternativas, etc. – e.g., a sua captura pelos interesses dos sectores de produção energética baseados nos combustíveis fósseis, ou o financiamento por estes, dos denominados denegacionistas (“denialists”) e logo, do seu trabalho de convencimento político. Essas explicações são correctas – a questão que se coloca, é a de saber se explicam tudo, e, na eventualidade de tal não suceder, se o que fica de fora é importante.


Duas peças de informação, de que dou notícia nesta nota, apontam que existe alguma coisa que fica de fora e é importante. É importante porque identifica razões determinantes da actuação de um grupo, estratégica e negativamente, muito importante neste debate – e “é imprescindível conhecer os nossos inimigos…”.


Uma primeira é uma exposição (em vídeo, em inglês) da evolução da percepção científica do fenómeno do aquecimento global; das respostas políticas ao problema; da história das reacções negativas a essa evidência; das suas estratégias de descredibilização (usadas também pela indústria do tabaco na sua luta contra a legislação anti-tabaco); e das motivações ideológicas dos “denialists” – é uma exposição longa (cerca de uma hora) pelo que poderá ser feita por troços (suspende-se o vídeo e toma-se nota do tempo que passou). Vejam no blogue Stranger Fruit, "The American denial of global warming". Se consideram que a evidência científica sobre o aquecimento global ainda é controvertida (de um ponto de vista científico!) – essa é “the conventional wisdom” de muitas, e boas pessoas, (algumas delas minhas amigas) – vejam o vídeo para, no mínimo, perceberem porque é que pensam assim.


A segunda é uma nota do blogue Pure Pedantry, Why Republicans Reject Science, onde se expõe de modo exemplar, lúcido e exaustivo a problemática do desamor da direita norte-americana pela ciência. O que aqui é dito valida a tese de Naomi Oreskes, no que respeita às motivações ideológicas dos “denialists”, apresentada no vídeo acima referido.
PS: Sobre esta temática ver aqui uma nota do Gristmill.

Expansão dos desertos...


Ocean areas where plankton do not thrive, shown in black, have been expanding recently, according to new satellite studies. (NOAA)





A foto e o comentário vêm no Dot Earth, blogue de Andrew C. Revkin no New York Times, em Expanding Deserts, by Land and Sea. Já se tinha feito referência a esse fenómeno (ver aqui e aqui).








Início da nota: "Scientists have long projected that areas north and south of the tropics will grow drier in a warming world –- from the Middle East through the European Riviera to the American Southwest, from sub-Saharan Africa to parts of Australia.





These regions are too far from the equator to benefit from the moist columns of heated air that result in steamy afternoon downpours. And the additional precipitation foreseen as more water evaporates from the seas is mostly expected to fall at higher latitudes. Essentially, a lot of climate scientists say, these regions may start to feel more like deserts under the influence of global warming.





Now scientists have measured a rapid recent expansion of desert-like barrenness in the subtropical oceans –- in places where surface waters have also been steadily warming. There could be a link to human-driven climate change, but it’s too soon to tell, the scientists said.

5 de março de 2008

Titã: mar extra-terrestre


Em Centauri Dreams - Of Islands and the Imagination: o primeiro mapa de um mar extra-terrestre, em Titã, satélite de Saturno: "you can see the unnamed sea that holds the islands, a vast body of liquid methane, ethane and nitrogen about the size of Lake Superior."

Terra: Água, Ar


No Gristmill, Water World - Imagens: Left: All the water in the world (1.4087 billion cubic kilometres of it) including sea water, ice, lakes, rivers, ground water, clouds, etc. Right: All the air in the atmosphere (5140 trillion tonnes of it) gathered into a ball at sea-level density. Shown on the same scale as the Earth.

EUA: e agora?



Bem. E agora? As coisas estão complicadas para o lado do Partido Democrata. É essa a sensação que perpassa a opinião de tutti quanti. As vitórias de Hillary Clinton repuseram-na na corrida; mas o consenso é de não ter possibilidades de chegar a Denver com mais delegados, mesmo que ganhasse todas as primárias até lá. Obama, por seu lado, embora com mais delegados, poderá também não conseguir descolar de Hillary Clinton. Assim, será o Congresso a decidir, através dos superdelegados.









Uma seleccão de opiniões:







  • Economist Brad DeLong's Fair, Balanced, and Reality-Based Semi-Daily Journal: É uma declaração de apoio: "The Democratic Primaries Are Over. BHO and HRC each took about half the delegates on offer yesterday. Her failure to reduce the delegate gap that had opened up in February means that BHO is sure to go into the convention with a lead in delegates--albeit not a lead so large that the unpledged delegates decide as a block that HRC would make a better candidate in the fall. If they decide to do so, I'm fine with that: their judgment on these issues is likely to be better than mine. But I don't think they will--in part because I suspect that they think America's swing independents are more attracted to him, and for that and other reasons BHO would be the stronger candidate in the fall. And I agree that BHO would be the stronger candidate--and I think we have good reason to judge that he would make a better president as well. So I enthusiastically endorse Barack Obama as the Democratic candidate for president in 2008."






  • Comment is free: No end in sight: É um artigo de discussão sobre as facetas da situação, concluído com esta tese curiosa: "There is one way to square this circle - and it is something that until very recently I would have rejected as foolish. It may still be. But perhaps the best way to unite the party and heal a damaging primary battle is a Clinton-Obama presidential ticket, or even an Obama-Clinton ticket. Whoever wins the nomination in Denver in August should openly, graciously and unconditionally offer the vice-presidential nomination to the other. Obviously it is then up to the losing candidate to accept or reject it, but even if he or she did reject it, the fact of the offer would do a great deal to mollify each campaign's supporters. One danger is that a Clinton-Obama ticket could be the worst of both worlds, gluing together the motivating force of Clintonophobia among Republicans and the barely-disguised racist repetition of Barack Hussein Obama. Perhaps. But in fact the worst of all possible worlds is the current reality: the Democratic party's two leading assets battling each other to the death. As Matthew records, 'What shall a man give in exchange for his soul?'"


  • Hillary’s Math Problem Print Article Newsweek.com: Discute a matemática dos delegados: "I'm no good at math either, but with the help of Slate’s Delegate Calculator I've scoped out the rest of the primaries, and even if you assume huge Hillary wins from here on out, the numbers don't look good for Clinton. In order to show how deep a hole she's in, I've given her the benefit of the doubt every week for the rest of the primaries."

  • Michael Gerson - Obama's First 100 Days - washingtonpost.com: É ficção científica, vertentes política e terror:"And this is not Agent Clinton's only contribution. By raising questions about Obama's foreign policy judgment, she has identified a potent issue -- an issue she cannot fully exploit because of the liberalism of her own party. But John McCain could. As a thought experiment, consider the foreign policy achievements of Obama's first 100 days in office."






Género nas eleições norte-americanas

O assunto é controverso. Já se falou dele aqui (ver notas sob a etiqueta género). Está, ou não, a questão do género a influenciar as eleições para a escolha do candidato democrata? Tenho aqui três artigos: uma coluna no Comment is free (Guardian) de uma empenhada apoiante de Hillary Clinton; uma opinião no Washington Post de uma mordaz não-apoiante de Hillary Clinton e um artigo do The Boston Globe que questiona o fundamento científico da força relativa dos preconceitos contra as mulheres e os negros. Todos concordam que existe um problema. O artigo mais interessante é último mas não podem deixar de ler o primeiro, pela indignação (correcta) que carreia. Excertos:



Comment is free: Goodbye to all that #2: A posição de Robin Morgan tem de ser lida na totalidade. Tive dificuldade em escolher um excerto que exemplificasse a sua opinião.




Ruth Marcus-The Force of Gender-washingtonpost.com "The image of charismatic leadership at the top has been and continues to be a man," said Ruth Mandel, director of the Eagleton Institute of Politics at Rutgers University. "Barack Obama's appeal and charisma is uniquely his own, but it also fits with an age-old history of men who electrify followers. . . . We don't have an image, we don't have a historical memory of a woman who has achieved that feat. That may not be coming anytime soon. Gender isn't the most restricting force in American life. It remains a force to be reckoned with."

Black man vs. white woman - The Boston Globe: "But turn away from the campaign trail, and toward the laboratories where psychologists work, and a fascinating ortrait of the primaries emerges. For decades, researchers have been probing bias - how it arises, how it changes, how it fades away. Their work suggests that bias lays a more powerful role in shaping opinions than most people are aware of. And hey suggest that the American mind treats race and gender quite differently. Race an evoke more visceral, negative associations, the studies show, but attitudes oward women are more inflexible and -- to judge by the current dynamics of the residential race -- ultimately more limiting."

Mais sobre o pico da produção do petróleo




Notícias da produção de petróleo, no Comment is Free (The Guardian), em The crude fact: "In the second week, Total boss Christophe de Margerie warned that oil production may be nearing its peak. He now believes the world will never be able lift production from the current level of 85m barrels per day. One hundred is out of the question, he says, much less the 115m that so many optimists assume. The CEO of ConocoPhillips agrees with him. The oil companies duly announced their 2007 results, and masked in statistics combining oil and gas production was the alarming fact that all, bar Total, had suffered falling oil production. This is not what we expect of an oil-addicted world on course for 115m barrels a day."

O gráfico acima foi construído por Paul Krugman e retrata a evolução do preço, em termos reais, do petróleo, nas últimas décadas (sobre isso e mais sobre este assunto, ver aqui e aqui).

Retórica e política (V)

Pedro Adão e Silva, no Diário Económico, fala da A lição de Obama (não é ainda que falo dos resultados de ontem - estou ainda a despachar os rascunhos guardados). Mas o artigo diz coisas sobre as quais importa reflectir e vai de encontro às preocupações de muita gente sobre o País e o modo como nele se faz política. Alguns excertos:

"O aspecto mais relevante da campanha de Obama – e que explica muito do entusiasmo gerado – não se prende com a apresentação de políticas assentes em soluções técnicas inovadoras. Pelo contrário, é difícil encontrar na primeira linha da sua argumentação propostas políticas concretas. Mas o que poderia ser visto como uma fragilidade é substituído por aquilo que é a sua principal força: a capacidade de mobilização pela palavra através da construção de uma narrativa sobre o passado dos EUA, mas que se projecta no futuro.Desse ponto de vista, a campanha de Obama veio relembrar o que tem sido frequentemente esquecido: a política é uma conversa colectiva dos cidadãos sobre a coisa pública. Ora, como tem acontecido um pouco por todo o lado, quanto mais esta dimensão é desvalorizada e substituída por uma disputa entre soluções técnicas alternativas, menos relevantes se tornam as clivagens políticas – o que, por sua vez, faz crescer a tendência para o afastamento dos cidadãos da política."

"...O discurso de Obama assenta em dois grandes pilares: por um lado, o envolvimento cívico e o espírito de comunidade – ou seja, a ideia de que o bem comum não depende necessariamente de mais governo, mas, sim, da participação de todos; por outro, o que pode ser classificado como optimismo realista – uma visão do futuro que não é cega face às dificuldades. Pelo contrário, reconhece que a dimensão das resistências à mudança implica a mobilização colectiva de vontades, baseada numa narrativa optimista quanto ao futuro."

"...Naturalmente que a definição de boas políticas é importante, mas Obama está aí para demonstrar que o fundamental é a capacidade de desenvolver uma narrativa mobilizadora, que olhe para o futuro com optimismo realista. Enquanto, como acontece por exemplo em Portugal, o essencial da política assentar em sucessivos acertos de contas com o passado, combinados com discursos de passa-culpas e com meia-dúzia de metas quantificadas, a possibilidade de, de novo, mobilizar as vontades de todos será irremediavelmente diminuta..."

Duas notas:
  1. Em Portugal, nem se discute, ao menos, as soluções técnicas alternativas, para os problemas do país (e para a região); fazê-lo obrigaria a afinar, necessariamente, também, as posições ideológicas alternativas (logo, obrigando à construção das ditas narrativas);
  2. Em Portugal, é perigoso dizer que "o fundamental é a capacidade de desenvolver uma narrativa etc.". Vai ser interpretado de modo incorrecto e restritivo como mais do mesmo. Deveria dizer-se que essa narrativa mobilizadora deve incorporar, também, mas não só, as boas políticas, assentes, mas não só, nas boas soluções técnicas.

Educação em Portugal (II)

Tenho acompanhado a discussão do processo. Não sei, se o que provoca a onda de protestos, não é, muito mais do que o mero método de avaliação - já que, parece, ninguém contesta a avaliação em si, e ainda bem que é assim. O método de avaliação - depois de ouvir o MRS, e ver o fluxograma do processo de avaliação na primeira parte do Prós e Contras - assustava, por aquilo que parecia promoter, de carga burocrática e inoperacionalidade; depois, a intervenção de um especialista da área da avaliação, nesse debate, qualificou o pretendido pelo Ministério de Educação como não sendo nada do outro mundo. Tudo visto, a minha dúvida é se a ênfase colocada no método de avaliação não esconde, de modo táctico, a questão determinante para os professores, que é o acesso automático aos escalões superiores da carreira - compreende-se: este método de avaliação possibilitaria operacionalizar a selecção dos que acederiam a esses escalões (atenção: é aquilo que depreendo do que vou ouvindo).




Sempre pensei que o sistema educativo português: não se avaliava, não se quantificava, não se comparava e aprendia com o exterior, do modo devido, e que a responsabilidade da sua envolvente - famílias, sociedade, actuação política, etc. - era determinante nos resultados (insuficientes) que obtinha - tentarei recuperar coisas que escrevi e coisas que li, a este propósito, para este blogue.




No entretanto, tenho aqui, um artigo de Miguel Castro Coelho, no Diário Económico, Avaliação chumba, que importa ser lido e reflectido (alguns pontos bem direccionados) - note-se: as implicações do que diz, a serem aceites, dariam uma reforma muito mais dura, para todos, do que é proposto neste momento, e, em todo caso, levariam à conclusão deste debate estar completamente descentrado do verdadeiro nó da questão.




"O novo regime de avaliação de professores não passa nos mais elementares testes de aptidão. Não tenho a mais pequena dúvida quanto à benevolência das intenções dos autores da iniciativa. E aplaudo com entusiasmo a vontade política para gerar mudança. No entanto, nos termos em que foi desenhado, este regime de avaliação apenas exprime uma tentativa de micro-gestão a partir do Terreiro do Paço talhada a falhar. Na prática, limita-se a acrescentar uma nova camada de requisitos burocráticos na gestão das escolas. Pelo caminho, comprou uma guerra desnecessária com os professores.Sejamos claros quanto à importância do tema em questão.






Dizem os estudos da economia da Educação que a “produção” de alunos de qualidade depende, em primeiro lugar, do nível socio-económico do aluno, e em segundo lugar, da qualidade dos professores. Um estudo recente da Universidade de Bristol sugere que a qualidade dos professores conta cerca de um terço da qualidade do aluno (incluídos os tais factores socio-económicos) para a “produção” de alunos de qualidade – uma estimativa que está, de resto, em linha com os resultados de outros estudos internacionais. Se se tiver em conta, contudo, que a qualidade de cada professor afecta vinte ou trinta alunos por cada turma, fica-se com uma ideia da importância desta variável para a qualidade global do sistema de ensino.




Perante isto, é conhecido o modelo do Ministério da Educação para estimular docência de qualidade: forçar sobre cada escola um regime de avaliação de professores uniforme, desenhado ao pormenor a partir do centro. Por outras palavras, um exercício de micro-gestão ao pior estilo ex-URSS; o exemplo acabado de centralização descontextualizada; e a prova de que está vivo o tradicional espírito legalista português, segundo o qual no mundo tudo se transforma por lei ou decreto-lei (pena é que, tal como na física, também por esta via nada se perca e nada se crie…).






O que, de facto, devia ter sido feito: (I) intervir a montante no recrutamento de professores (reservar o acesso a cursos específicos de formação de professores a candidatos com curriculum universitário de topo, capacidade de relacionamento interpessoal, comunicação, vontade de aprender e ensinar, excepcionais); (II) descentralizar a gestão do corpo docente para o nível da escola, e avaliar a ‘performance’ das escolas (e não dos professores) a partir do centro (i.e. do Ministério da Educação). Por outras palavras, transferir a capacidade de gerir a qualidade do corpo docente para gestores escolares profissionais (professores ou não), recrutados e responsabilizados pelos resultados do processo de avaliação das escolas a partir do centro.Para conseguir fazer uma avaliação objectiva do desempenho de cada escola por comparação com escolas congéneres, o Ministério da Educação tem que se tornar num ‘hub’ de informação sobre todo o sistema.






A má notícia é que está muito longe de o ser. Num projecto-piloto que abrangeu 100 escolas (Avaliação Externa das Escolas – Relatório Nacional 2006-2007, publicado a 27/02/2008) a Inspecção-Geral da Educação (um dos braços do Ministério da Educação) não conseguiu sequer reunir informação fiável sobre o contexto socio-económico das escolas… tão só e somente aquele que é, indiscutivelmente, o factor mais importante a ter em conta na avaliação do desempenho das escolas. Pior do que isto, só mesmo o caminho analítico que o relatório adopta: o da prosa oca, com ares pseudo-técnicos, muito similar ao da consultoria privada desinformada.






Em vez de tentar ensinar as escolas a avaliar professores, o Ministério da Educação devia esforçar-se por aprender a avaliar as escolas. A esse respeito, o trabalho até agora feito é de nível profundamente medíocre. Sei que há no país especialistas na matéria com créditos firmados ao nível internacional. Trabalho no meio e já perdi a conta ao número de excelentes artigos académicos publicados por portugueses em jornais internacionais de referência. Mais surpreendente é que algumas dessas pessoas trabalham para o próprio Estado (mais concretamente, estão no Banco de Portugal). A peça que falta no ‘puzzle’ é vontade de fazer uso dos melhores recursos do país."

Seca na Austrália

A seca na Austrália atenuou-se nos últimos meses mas há quem considere que o problema se manterá no futuro, e se reproduzirá noutras partes do mundo (e.g., no sudoeste norte-americano) devido às alterações climáticas (ver aqui e aqui). No entretanto, os hábitos de consumo de água dos australianos (pelo menos nalguns sítios) alteraram-se. No Climate Progress, em Australia today = U.S. southwest by 2050, é dito: "Average daily summer water use in Melbourne during the 1990s was 1,631 litres, compared with 1,092 litres at the end of last month" - é uma descida de 33% em todo o tipo de consumo de água (domésticos e não só). Gostaria de saber qual é o consumo em Ponta Delgada.

O futuro das universidades?

Bruno Maçães fala no Diário Económico, em A criação do mundo, de universidades, sobre o serviço de educação que prestam, da evolução do mercado do trabalho. Os seus artigos são sempre curiosos, afirmam teses atípicas, mas merecem sempre atenção - este, em particular: aquilo que diz sobre o conhecimento digitalizado tem sentido. Excertos:

"...As grandes universidades mundiais, aquelas que conheço, fazem um péssimo trabalho de educação. São óptimos sítios onde se estudar, claro, porque toda a gente ou quase toda a gente que os frequenta é terrivelmente esperto, mas nada do que acontece durante os quatro anos de estudo é particularmente recomendável. Toda a gente sabe que é assim: um empregador não está minimamente interessado no que o aluno aprendeu. O que o atrai é a inteligência bruta do candidato, que a universidade se deu ao meticuloso trabalho de medir quatro anos antes e que nem a pior educação do mundo pode estragar
[esta tese é já antiga]."

"Por enquanto isto tem funcionado, mas as contradições entre a universidade e o mundo à sua volta começam a ser demasiado grandes. Se eu tivesse de dar conselhos aos pais de uma criança acabada de nascer, a primeira coisa que lhes diria é que não ensinem uma profissão ao filho ou filha. Quase todas a profissões serão mais ou menos inúteis dentro de duas décadas, quando tivermos computadores capazes não só de comprar e vender, produzir e pesquisar, como acontece já hoje, mas também de escrever os seus próprios programas. Em compensação, a capacidade de perceber o mundo à nossa volta vai valer muito: um minúsculo investimento na empresa certa rapidamente renderá milhões. Quanto mais poderosos se tornarem os nossos computadores, mais inútil se tornará o conhecimento capaz de ser digitalizado."

"Como será a universidade do futuro? Julgo que não me enganarei se disser que será semelhante às melhores empresas de hoje. Bem mais caótica do que as universidades actuais, um sítio onde a transmissão de conhecimento se fará mais eficazmente em situações informais, ao almoço ou no ginásio, do que na sala de aula. Uma escola sem disciplinas, onde tudo pode ser igualmente estudado, dependendo das circunstâncias. Um projecto global, sem ligações privilegiadas a um país ou a uma cultura. Uma empresa onde o dinheiro, muito dinheiro, seja visto como um meio de fazer grandes coisas, sem ascetismo ou timidez. Uma aventura onde não mudar de opinião seja considerado um fracasso e onde, ao fim do dia, de exaustão, só apeteça dormir."

Cenários de emissão de CO2 (reedição)


Nota: Estou a reeditar a nota para poder recuperar o gráfico para o blogue.






"Podem ver neste gráfico (milhões de toneladas de CO2 na ordenada versus anos na abcissa) as consequências, em termos de emissão de CO2, das diversas propostas de contenção das emissões (Kioto, propostas legislativas do presente Congresso dos EUA) em comparação com os cenários: "Deixa andar", "Estabilização a 450 ppm" e "Estabilização a 550 ppm" - estes dois últimos cenários são aqueles, que são apontados pelos cientistas, como ainda possibilitando um controlo razoável dos problemas. Deve-se ter isto em conta como referência futura.




PS: ppm = partes por milhão."

4 de março de 2008

Terra e Lua



Fotografia tirada do HiRISE, em viagem para Marte. Ver em Bad Astronomy a explicação: "We were 192 million kilometers (115 million miles) from Mars when HiRISE turned around and took this picture. Right away I could tell that was South America’s west coastline… which is incredible. I also was just starting to wonder about the Moon in the image when I read that it had been brightened artificially to make it easier to see; in general the Earth is 3-4 times more reflective than the Moon, so it’s a lot brighter."

Dúvidas e esperanças sobre Obama

A escolha do candidato democrata pode ficar resolvida hoje e - o que é mais previsível - poderá ser Barack Obama (Hillary Clinton terá de ganhar e de modo claro para isso não suceder). No entanto, as dúvidas continuam e foram aprofundadas por decisões de Obama sobre a composição do seu governo. Um dos aspectos mais interessantes de acompanhar, nos próximos anos, nesse magnífico laboratório político, que são os EUA, será, à luz do movimento criado, a actuação do provável presidente Barack Obama. Para já, e para memória futura, alguns apontamentos sobre as dúvidas e as esperanças criadas por ele.


  • Paul Krugman no New York Times, diz, sem surpresa, em Deliverance or Diversion?, : "All in all, the Democrats are in a place few expected a year ago. The 2008 campaign, it seems, will be waged on the basis of personality, not political philosophy. If the magic works, all will be forgiven. But if it doesn’t, the recriminations could tear the party apart." A-propósito da posição de Krugman em relação ao Obama, Economist's View avança, em Backing Obama into a Corner, com uma hipótese de explicação.
  • Já com surpresa para mim, Chris Bowers (apoiante acérrimo de Obama), na Open Left, em Obama To Put Conservatives in Cabinet, e aqui, relembra, e de modo crítico, a deriva centrista de Obama e manifesta desagrado sobre algumas indicações para o governo: "If I am missing something, I don't know where to look for it. Chuck Hagel as Sec Def is just the latest indication that Obama is more about placating High Broderism, Tim Russert and the Washington Post editorial board than he is about transformative progressive change. I'll work hard to help elect him, but I also don't intend to delude myself about what to expect when he becomes President." Também aqui: More Veepstakes: The Future Of the Party.
  • O Economist's View refere outras opiniões, em Barack Obama and Bipartisanship. Numa, fala-se dos conservadores a votar em Obama (será isso que Obama quer com todo o seu centrismo e indicação de escolhas? Ele acredita nisso ou é mero expediente táctico?).
  • Sobre a política da esperança defendida por Obama, uma opinião de esquerda: The Nation The History of Hope; uma opinião de direita: Yes, We Can’t by Fred Siegel, City Journal.
  • No entretanto, economistas europeus criticam acerbamente a posição de Barack Obama quanto ao comércio internacional: The dangerous protectionism of Barack Obama vox - Research-based policy analysis and commentary from leading economists: "Barack Obama, the likely Democratic presidential candidate, has proposed tax breaks for US corporations that invest at home rather than abroad. This column argues that his proposal is protectionist, reactionary, and economically unsound."

































































































3 de março de 2008

Não os ouvimos porque não usam as ondas de rádio


Enrico Fermi, nos anos quarenta, enunciou o paradoxo que tem o seu nome: "Se existem extra-terrestres, porque é que não aparecem?". Na verdade, podia argumentar-se que, dado o devido tempo, e com um nível tecnológico (não muito) superior ao nosso, haveriam soluções que possibilitariam qualquer espécie espalhar-se pela nossa galáxia. Uma outra versão dessa pergunta seria: "Se existem extra-terrestre, porque é que os não ouvimos?". A resposta é anunciada aqui: The Great Silence -Are We the Miss Lonely Hearts of the Milky Way? The Daily Galaxy: News from Planet Earth & Beyond. Um excerto:






"Drake goes on to point out that contrary to popular wisdom which believes that we could discover the existence of extraterrestrials from powerful beacons beamed our way from their vastly advanced civilizations, that if we use the Earth is an case study, that the more advanced the civilization, the less likely they are to emit powerful radio waves. With our evolution to cable and satellite transmissions, we are now leaking very little out to space. The earth is gradually becoming 'radio quiet' in a cosmic blink of the eye."

Notícias do futuro?


No debate sobre as consequências sobre o aquecimento global, as possibilidades das novas tecnologias são discutidas de modo diverso: para uns, fazem parte do conjunto de instrumentos e políticas que devem ser exploradas com vista a conter a emissão dos gases de estufa; para outros, são o argumento invocado para desculpar qualquer reacção da nossa parte - se o problema existe (o aquecimento global), o desenvolvimento tecnológico futuro resolvê-lo-á.




O prognóstico, de que se fala abaixo, a ser confirmado (não tanto o prazo como a sua factibilidade) sublinharia, de modo categórico e diferente, a frase: "de o futuro, já não ser, o que era", e daria razão àqueles últimos - a história, por vezes, dá razão a quem não a tem (e neste caso, eu e todos nós deveríamos ficar muito felizes com isso: vejam aqui).




Ver Gucci Genes -Designer Life Forms to Convert CO2 to Fuel The Daily Galaxy: News from Planet Earth & Beyond: "We have modest goals of replacing the whole petrochemical industry and becoming a major source of energy,' Venter told Al Gore, Google co-founder Larry Page and other attendees at the Technology, Entertainment and Design conference held recently in Monterey, California. 'We think we will have fourth-generation fuels in about 18 months, with CO2 as the fuel stock.'"

Educação em Portugal (I)

António Correia de Campos - sim, o anterior ministro da Saúde - aprecia o debate sobre as reformas na Educação, no programa Prós-e-Contras, da RTP1, no Diário Económico, Debater para educar. Compara o tipo de oposições às reformas na Saúde e na Educação, e conclui que são diferentes - menos eficaz a relativa à Educação - e admira-se:
"Trata-se de uma impossibilidade material: como é possível estar contra as aulas de substituição ou mascarar essa oposição inicial com a posterior reivindicação de as tolerar desde que pagas em horas extraordinárias? Como é possível ser contra a avaliação, ou apenas contra a sua complexidade, ignorando o rigor e a qualidade que devem ser colocados em cada julgamento? Como é possível ser contra a hierarquia docente, assente em critérios objectivos, com o argumento de que a selecção não foi perfeita, terá deixado alguns de fora, ou deva ainda ser corrigida? Porventura ficou fechada a porta do aperfeiçoamento das soluções? Como é possível ser contra a direcção unipessoal das escolas, com base em planos, programas e órgãos consultivos de representação comunitária, com o vetusto argumento da alegada “gestão democrática das escolas”? Em que século vivem os opositores das reformas na Educação? Terão eles pensado no dia seguinte?"
Voltarei a isto!

Rússia: que fazer?

Os problemas da Rússia são sérios - por exemplo, ver os seguintes dois excertos deste artigo da Telos, Russie : le retour du libéralisme ?:
"L'échec le plus patent de Poutine est que l’espérance de vie des hommes est restée bloquée à 60 ans, ce qu'il a appelé avec justesse « une honte ». L’alcoolisme de beaucoup d’hommes de tous âges s’apparente à un suicide à petit feu. Le pays a un besoin impérieux d’une politique anti-alcool efficace, mais le gouvernement n'a rien fait jusqu’ici. Chacun se désole par ailleurs de l’état pitoyable du système de santé ; des projets de réforme ont été formulés dès 1996, mais Poutine ne les a pas appliqués, augmentant seulement les subventions dans certains secteurs. Il n’y a pourtant aucune raison pour un pays aussi riche que la Russie aujourd’hui d’avoir un système de santé de pays sous-développé."
"La Russie souffre aussi d'un manque criant de travailleurs qualifiés. D’après les données comparées de l'UNESCO, les deux tiers des jeunes Russes va à l'université, plus qu’en Europe, mais l’éducation publique reste pauvre."
O artigo discute o que o novo presidente poderá trazer de novo, em termos de política.

Astronomic Picture of the Day - 3 de Março: Dunas em Marte



Dunas em Marte, próximo do Pólo Norte, em processo de descongelação: Astronomy Picture of the Day.

Bio-degradável



Aconteceu num dos nossos miradouros, no passado fim-de-semama: - um grupo de 4 jovens come laranjas; ao fim, as cascas são lançadas para o fundo; um protesta; resposta: é bio-degradável; risos.









Pois é. As cascas das laranjas são bio-degradáveis.









O que não é bio-degradável: é a impressão com que fiquei da cena; é a impressão com que os estrangeiros - que lá estavam - ficaram da cena; é a impressão com que, os que lá passarem, ficarão do lixo espalhado no fundo da ravina; e, o mais grave, muito mais grave e para todos nós, é o quadro de valores, de usos, de comportamentos, que desculpabilizam estes pequenos gestos e que acompanharão estes cidadãos ao longo de toda a sua vida pessoal, profissional e cívica.







A virtude (e a eficiência de uma sociedade, em todos os seus domínios de actividade) começa na disciplina que imprimimos aos nossos pequenos gestos e às nossas pequenas rotinas, em todos os aspectos da nossa vida.

2 de março de 2008

O inverno vai frio (a nível mundial) - o aquecimento global foi às urtigas? (II)


Esta nota vem a complementar outra sobre o mesmo assunto (ver aqui). Ver no blogue Climate Progress o comentário sobre o mesmo assunto: Media enable denier spin 1: A (sort of) cold January doesn’t mean climate stopped warming: "Our deep understanding of the climate is, as I’ve noted, based on hundreds of peer-reviewed studies that themselves are based on countless real-world observations over decades (and paleoclimate data extending back hundreds of thousands of years). It can’t be undercut by a few weeks of cool weather – and the really annoying thing, you may be surprised to learn, is they haven’t even been remarkably cool!" Vejam o gráfico.

Bancos Centrais, a política monetária e a inflação

Esta matéria prende-se com aquilo que se dizia aqui, sobre a actuação do Banco Central Europeu. Nessa nota, a contrário do artigo do Diário Económico, eu mantinha em aberto a possibilidade do BCE estar a actuar de modo prudente e adequado face à conjuntura. As informações que vêm do outro lado do Atlântico, sobre a evolução da inflação nos EUA, e como o FED está a regir, não me levam a alterar essa posição: muito pelo contrário.

A inflação nos EUA está a aumentar de modo muito significativo - em Janeiro, a inflação homóloga atingiu o valor de 7,4%, o pior valor desde 1981. Sasha Abramsky, no Comment is free (Guardian), em Bottom dollar, ajuiza de modo muito crítico o modo como o Banco Central norte-americano tem utilizado a política monetária em resposta a esta nova situação: "The economic news of the week: US inflation is now the highest it's been since 1981: In many sectors of the economy - food, energy, healthcare - it's now running at double-digits, and the dollar's value against the euro has plummeted through the $1.50 barrier. If this were any other country in the world, lowering interest rates in the face of inflation numbers such as were released this week would result in condemnation from the International Monetary Fund, in financial powerbrokers strong-arming politicians to do the sensible thing and reverse course. But we're the biggest, strongest, most unilateralist nation on earth. So that's not going to happen. Nobody will strong-arm the Fed to raise rates, and, to subsidise the nation's current reckless consumption patterns, the poor will continue to see their already-shrivelled purchasing power decline."








A sua tese é do problema maior, agora, ser a degradação do poder de compra dos salários mais baixos - dá exemplos (são muito esclarecedores) - e não o desemprego, donde uma dose moderada de monetarismo conjugada com subsidiação direccionada e alívio aos problemas no mercado hipotecário, poderia ser a solução. Mas esse não é o caminho seguido: iria contra os interesses da classe média (necessidade de manutenção do seu padrão de consumo) e dos donos de acções, (e da saúde das instituições financeiras) e, viria a contrário da linha ideológica desta administração. Relembra, também, que a responsabilidade deste surto inflacionista sendo imputável a causas externas, tem uma componente interna incontornável.




Esta análise é escorada, pelo menos, em parte, por outras. O blogue Political Calculations, nesta nota Choosing Inflation diz: "Allowed to go on for too long, you would end up with the same kind of imbalances and economic nightmare had you chosen the shock therapy approach instead. Only now, lots of people cannot afford anything like their previous standard of living because everything costs so much more." Discute as opções e confirma que tudo aponta para o FED ter optado pela saída mais fácil, no curto prazo: a inflacão.



Por seu lado, o blogue Free exchange (Economist.com) fala de The consumer squeeze: "Now, however, inflation is primarily being driven by increasing raw materials prices, which squeeze corporate margins. That squeeze and a weak economy rule out significant wage increases for most workers. As such, real wages fall with inflation. This forces consumers to reduce their spending, further undermining the economy. The result is substantial pain for most households and a rather large headache for Ben Bernanke."







Em suma, e até prova em contrário, o BCE está a actuar bem e, da minha parte, estou muito satisfeito com o euro, por esta e por outras razões - mesmo, implicando isso, que pague mais caro (afirma-o a vox populi) a bica e outros produtos do que pagaria se continuasse com o escudo.

PS (08.03.04): No entanto, Paul Krugman considera que o FED está a fazer aquilo que deve ser feito (ver aqui).

PS(08.03.04): E mais sobre este assunto no Economist's View, em Fed Watch: Inching Closer to the Reality of Stagflation. Outra apreciação, focando mais a situação geral da economia norte-americana: An economic slowdown? The San Diego Union-Tribune.

PS(08.03.04): As coisas estão pretas: mais do mesmo, no Free exchange (Economist.com) - From tightrope to hurdles.

Iraque: notícias sobre o próximo futuro

Na Rolling Stone, um artigo sobre a situação actual no Iraque: The Myth of the Surge. O subtexto do título é o seguinte: "Hoping to turn enemies into allies, U.S. forces are arming Iraqis who fought with the insurgents. But it's already starting to backfire. A report from the front lines of the new Iraq."
É de loucos, o que se passa no Iraque. Não dá para fazer comentários - com a sua última ofensiva ("the surge") Bush consolidou, de modo definitivo, a sua herança iraquiana. Querem saber o trabalho que espera o próximo Presidente dos EUA? Leiam o artigo: será, o que se chama, espreitar o futuro.

Conjuntura

Notícias da economia, em 08.02.29, no Free exchange (Economist.com), Above the fold:

  • Economic sentiment is down in the Eurozone...
  • While European sentiment is at a three year low, American consumer confidence has fallen to its lowest level since 1992...
  • ...American consumer spending rose more than expected in January. The 0.4 percent increase in consumer outlays largely reflected higher consumer prices; after adjusting for inflation spending was essentially flat. Incomes were up 0.3 percent and saving down 0.1 percent, reflecting anecdotal evidence that households are drawing on savings to maintain spending levels.
  • ...And home prices in Britain fell for a fourth consecutive month, according to Nationwide. Declines are orderly and mild, so far, and most economists do not currently see an American-style slowing in the country's housing markets.

George Washington: sobre o Iraque

Que conselhos, George Washington poderia ter dado à administração Bush sobre a intervenção no Iraque? Vejam o artigo no washingtonpost.com: Lessons on Iraq From a Founding Father e estes excertos aqui:



"On Sept. 14, 1775, Washington wrote two letters to Col. Benedict Arnold, who led an American force into Canada. Five of Washington's points for invasion merit particular attention




¿ First, if the citizens don't want us there, don't go. Washington told
Arnold, ...;





¿ Second, the safety of American personnel depended on
how they treated people...;



¿ Third, proper treatment of prisoners was
necessary...;





¿ Fourth, any Americans who mistreated Canadians should
be punished...;




¿ Fifth, respect the people's religion..."



Enfim, nada que um, qualquer, político competente, não devesse saber.

Aborto, gravidez indesejada e planeamento familiar

George Monbiot, no Comment is free, no The Guardian, Our awful rate of abortion is partly the Cardinal's responsibility, fala-nos do aborto e das responsabilidades em presença: uma citação, interessante, a diversos títulos: "Murphy-O'Connor [cardeal] has denounced contraception and abortion many times. That's what he is there for: the primary purpose of most religions is to control women. But while we may disagree with his position, we seldom question either its consistency or its results. It's time we started. The most effective means of preventing the deaths of unborn children is to promote contraception."








Convém ler o artigo, por todos os motivos: tem, nomeadamente, estatísticas muito interessantes, mas não só. Vejam este excerto (tem aplicação regional):






"There is also a clear relationship between sex education and falling rates of unintended pregnancy. A report by the United Nations agency Unicef notes that in the Netherlands, which has the world's lowest abortion rate, a sharp reduction in unwanted teenage pregnancies was caused by "the combination of a relatively inclusive society with more open attitudes towards sex and sex education, including contraception". By contrast, in the US and UK, which have the developed world's highest teenage pregnancy rates, "contraceptive advice and services may be formally available, but in a 'closed' atmosphere of embarrassment and secrecy".
Poderia apresentar ainda excertos muito duros deste artigo - fica ao vosso critério, acedê-lo ou não. No entretanto, e a-propósito, confesso a minha surpresa, em relação à notícia, dada nas notícias da RTP Açores, quanto à incidência da gravidez na adolescência nos Açores e o facto da sua dimensão não se ter alterado nas últimas décadas. Algumas das razões para isso entroncam naquilo que é dito no artigo de Monbiot - outras, não! A falar depois...







O inverno vai frio (a nível mundial) - o aquecimento global foi às urtigas? (I)



O inverno tem sido rigoroso em diversas partes do mundo, com descidas significativas de temperatura (ver gráfico acima) - (embora, aqui, nos Açores, a impressão que tenho é de temperaturas maiores do que o habitual para esta época do ano, e com maior precipitação -posso estar errado). Esta descida da temperatura tem vindo a ser invocado pelos cépticos do aquecimento global como prova de estarem certos. Andrew C. Revkin, do New York Times, discute o assunto em Skeptics on Human Climate Impact Seize on Cold Spell. A interpretação, do que se passa, gira à volta da diferença conceptual entre tempo e clima (ver mais aqui).

O futuro já não é o que costumava ser... (I)

O cientista James Lovelock, o da hipótese Gaia, não tem dúvidas quanto ao nosso (próximo) futuro - vejam a entrevista que o Guardian lhe faz: 'Enjoy life while you can' . As alterações climáticas são inevitáveis; ultrapassaram o ponto de não retorno; nada podemos fazer para evitá-las; irão ser a mãe de todas as catástrofes:







"Climate science maverick James Lovelock believes catastrophe
is inevitable, carbon offsetting is a joke and ethical living a
scam."







"Lovelock believes global warming is now irreversible, and
that nothing can prevent large parts of the planet becoming too hot to inhabit,
or sinking underwater, resulting in mass migration, famine and epidemics.
Britain is going to become a lifeboat for refugees from mainland Europe, so
instead of wasting our time on wind turbines we need to start planning how to
survive. To Lovelock, the logic is clear. The sustainability brigade are insane
to think we can save ourselves by going back to nature; our only chance of
survival will come not from less technology, but more"



"What would Lovelock do now, I ask, if he were me? He
smiles and says: "Enjoy life while you can. Because if you're lucky it's going
to be 20 years before it hits the fan."












Aqui, têm uma ligação para outra entrevista de James Lovelock, agora na Rolling Stone, sobre o mesmo assunto - a previsão é aí mais precisa sobre os contornos do que irá suceder (na sua opinião).

A incerteza científica é razão de preocupação, não de complacência (II)



Climate Progress, Disputing the "consensus" on global warming. O gráfico compara as projecções feitas pelos modelos utilizados pelo IPPC, da diminuição do gelo, no Ártico, com aquela que efectivamente ocorreu (leitura feita por satélite - 1979-2007). Devem ter em linha de conta o que disse aqui sobre isso.

1 de março de 2008

Frases

"We argued with the Chinese for 50 years that they should abandon Communism. Unfortunately, they finally agreed with us."

- John Husing

China: perspectivas diferentes

No Diário Económico, dois artigos, com duas perspectivas diferentes sobre a China e sobre o seu impacto mundial: Arroz amargo e Conter a China.














O primeiro refere a conjuntura económica por que atravessa a China - o crescimento acentuado da inflação e as pressões sócio-económicas associadas; os constrangimentos que lhe são colocados pela diminuição da terra arável e alterações demográficas nos campos e as consequências que tudo isso coloca nos mercados de inputs e bens alimentares, a nível mundial.









O segundo defende a necessidade da actuação da China, no comércio mundial, ser disciplinada pelo respeito de regras mínimas no domínio do social e do meio ambiente, o que, a não suceder, poria em risco a abertura dos mercados e a globalização, pelas perturbações concorrencias que o peso do comércio chinês provoca, a nível mundial.


























A justaposição dos dois artigos é interessante. O que o primeiro nos diz qualifica a mensagem de apreensão carreada pelo segundo. O crescimento económico chinês tem sido positivo para todo o mundo (ver aqui), mesmo que, tendo trazido uma concorrência acrescida e desproporcionada para dados segmentos de actividade em algumas indústrias tradicionais, em alguns países - e.g., o têxtil de menor valor acrescentado, em Portugal. Trouxe milhões de novos consumidores ao mercado mundial; reforçou a procura mundial de inputs produtivos e, o facto, de ter conseguido tirar da pobreza absoluta parte significativa da população chinesa, é um bem inestimável - uma China mais rica e menos pobre, tem implicações muito positivas para a segurança mundial. Mesmo a tensão que esse crescimento tem provocado (e que irá continuar a provocar) nos mercados mundiais de inputs e de bens alimentares, é positiva porque está a antecipar problemas que, em qualquer dos casos, iriam eclodir mais cedo ou mais tarde (ver aqui) - assim, esses problemas terão de ser confrontados tempestivamente e, possivelmente, num quadro muito mais favorável.


























Quanto à dimensão do stress provocado pela concorrência chinesa nos mercados mundiais, ela tem de ser qualificada (ver aqui, aqui, aqui,) - mesmo quando potenciada por sub-padrões de trabalho e de normas ambientais - e, em qualquer caso, o próprio crescimento chinês e o seu impacto no comércio mundial, precipita a ocorrência de fenómenos correctores que limitarão a sua manutenção ao nível actual, no futuro (ver aqui, aqui): - o crescimento dos preços chineses, e o seu impacto na competitividade; a qualidade do output chinês (nalguns casos, pelo menos: o segundo artigo refere um caso) (ver aqui); a escassez de mão de obra qualificada e comportamento do mercado do trabalho (ver aqui); o custo crescente do aumento da poluição, dos problemas ambientais e dos problemas de saúde e sociais concomitantes (ver aqui, aqui).
























O principal mecanismo de transmissão dos perigos que a situação social e ambiental na China (os seus sub-padrões sociais e ambientais) acarreta ao resto do mundo, não é o comércio internacional na parte que diz respeito à sua oferta produtiva, às suas exportações. É o efeito sobre o clima global, através da emissão de gases de estufa e da sua poluição (ver aqui, aqui); são as pressões sobre os equilíbrios macroeconómicos mundiais decorrentes das suas políticas económicas, e as implicações, potencialmente destabilizadoras, em termos de segurança internacional, das consequências futuras de uma resposta local, menos adequada, aos seus problemas sociais, ambientais, e políticos - necessidade da manutenção do aumento do emprego; reforço do sistema de segurança social e de saúde e combate à desigualdade (ver aqui). Todas os ganhos chineses continuam a ser contestáveis, e regredíveis, face à dimensão e evolução dinâmica destes problemas. A China não tem de ser contida (por motivos proteccionistas); tem é de ser influenciada no sentido de dar resposta aos seus problemas internos, pelo seu próprio bem e o nosso - queremos uma China, rica, segura, estável, que produza de modo o mais eficiente possível, e exporte e importe muito (ver aqui).






































































A incerteza científica é razão de preocupação, não de complacência (I)

Não sei como sublinhar a importância da tese deste artigo: FT.com / Comment & analysis / Comment - If climate sceptics are right, it is time to worry (exige registo para ter acesso a 30 artigos, sem custo).






Face à incerteza científica quanto à verdadeira dimensão das alterações climáticas induzidas pela actividade humana, deveríamos ficar mais preocupados (e não menos). Uma das razões é simples: as coisas poderão ser bem piores do que os cientistas afirmam neste momento - veja-se as críticas do relatório do IPPC por parte dos defensores da tese da influência humana no clima: é o caso de Joseph Romm que num artigo na Salon.com, The cold truth about climate change, afirma: " The science isn't settled - it's unsettling, and getting more so every year as the scientific community learns more about the catastrophic consequences of uncontrolled greenhouse gas emissions. The big difference I have with the doubters is they believe the IPCC reports seriously overstate the impact of human emissions on the climate, whereas the actual observed climate data clearly show the reports dramatically understate the impact."








Excerto do artigo do FT:








"Al Gore says the science on global warming is clear and there is a major problem. Vaclav Klaus, Czech president, contends that climate change forecasts are speculative and unreliable. Whose claims are scarier? Of course, Mr Klaus exaggerates (he is a politician) but if he is partly right, we should be more concerned, not less. Consider an analogy. If, like many of my neighbours in Oxford, you believe that new building exacerbates flooding, how would you feel if models that predicted bad news were discredited? It depends.
If the original models were biased, your best guess of the height of future floods is now lower. But if the models merely underestimated the uncertainty, the range of plausible outcomes is now greater, so flood defences would need to be higher for us to feel safe. Likewise, if our understanding of climate systems is flawed, our best guess about the dangers we face may be less pessimistic, but extreme outcomes are more likely. Mr Klaus is probably right that there are fewer certainties than many claim. Even commentators who support the conclusions of the Intergovernmental Panel on Climate Change point to methodological weaknesses in its economics. A UK High Court judge
recently required that a list of “scientific errors” be sent to schools that show Mr Gore’s remarkable polemic, An Inconvenient Truth – confirming the impression that the film goes some way beyond established facts (Mr Gore is also a politician) [Isto não está bem contado: ver aqui, no Real Climate, aquilo que sucedeu].
But we hardly need Mr Klaus to teach us that experts’ models can be incomplete and a strong consensus can be badly flawed. ... How confident can we be about the way a system as complex as earth will respond to conditions it has never encountered before? Although greater uncertainty means climate change might be less bad than we fear – for example, an “iris” effect means increases in cloud cover may slow global warming – it also means it might be much worse. While the central predictions of climate change models are arguably not so much worse than many other difficult problems the world faces, the worst possibilities are far, far nastier.
Consider the “clathrate gun hypothesis” that warming seas could lead to clathrates (the frozen chunks of methane at the bottom of the sea) exploding into the air, which is what might have caused mass extinction at the end of the Permian era. Or the concern that the carbon dioxide could cause hydrogen sulphide gas to build up first in the oceans then in the atmosphere, exterminating most of life (and potentially also attacking the ozone layer, permitting the sun’s ultraviolet radiation to kill remaining life) – this, too, has been blamed for previous mass extinctions. I am not losing any sleep about these specific scenarios. In part that is because they seem so improbable (in spite of Mr Klaus’s eloquent expositions of how little we really know). But it is also because the fact that we have already thought of these risks means that, if it becomes necessary, we probably have time to organise a last-ditch geoengineering solution (seeding the ocean with an antidote, for example) that would at least mitigate the very worst consequences
[muitos não concordam com isto: os remédios podem ser piores do que a cura].
But what of completely unanticipated possibilities? Even Donald Rumsfeld, former US defence secretary, understood that it is the “unknown unknowns” that should really worry us. Serious scientists worry that feedback effects such as release of methane from the Siberian permafrost (or those underwater clathrates), or reductions in the earth’s reflectivity due to polar ice loss, could cause runaway greenhouse warming, with unforeseeable outcomes that would look like bad science fiction from today’s perspective. The continuing scientific uncertainty about the pace of climate change should make us more concerned, not less. And it is those who doubt the climatologists’ models who should be the most frightened."

Retórica e política (IV)

Ainda sobre a retórica e a política, e de como essa questão é relevada no quadro das eleições norte-americanas, mais dois artigos (ambos devem ser lidos na totalidade):





  • Does Obama's baritone give him an edge? Salon: "Aside from the symbolism of finding a new hero who might displace the shame and fear that has poisoned American public life since Martin Luther King's murder in 1968, there is something in the very essence of Obama's voice -- its tone, its timbre, its resonance -- that has struck deep chords among Americans and foreigners in this year's campaign season. Not since King's 'I Have a Dream' speech in 1963 has a black American moved so many other Americans, white or black. And once the matter of voice was raised for Obama, a not always flattering parallel immediately arose concerning the voice of the first real female candidate in U.S. history: Hillary Clinton"



  • Michael Gerson - Words Aren't Cheap - washingtonpost.com "...From the Greek beginnings of political rhetoric, the wise have described a relationship between the discipline of writing and the discipline of thought. The construction of serious speeches forces candidates (or presidents) to grapple with their own beliefs, even when they don't write every word themselves. If those convictions cannot be marshaled in the orderly battalions of formal rhetoric, they are probably incoherent. The triumph of shoddy, thoughtless spontaneity is the death of rhetorical ambition. A memorable, well-crafted speech includes historical references that cultivate national memory and unity -- "Four score and seven years ago." It makes use of rhythm and repetition to build enthusiasm and commitment -- "I have a dream." And a great speech finds some way to rephrase the American creed, describing an absolute human equality not always evident to the human eye. Civil rights leaders possessed few weapons but eloquence -- and their words hardly came cheap. Every president eventually needs the tools of rhetoric, to stiffen national resolve in difficult times or to honor the dead unfairly taken. It is not a failure for Obama to understand and exercise this element of leadership; it is an advantage. Some Obama critics go even further, accusing him of inducing a "creepy," "cultish" "euphoria." A candidate delivers a good stump speech, adds a dose of personal magnetism and suddenly he is a sorcerer, practicing the dark arts of demagoguery."

Repensar a esquerda?

João Almeida Santos, no Diário Económico, discute quais devem ser tópicos do Repensar a esquerda?. Excertos (o artigo deve ser lido na totalidade):


"...Repensar a esquerda ou repensar a sociedade? Eu creio que para repensar a esquerda é preciso, antes, repensar a sociedade. E é preciso também abandonar as proclamações morais, indo directamente ao assunto. E, para ir ao assunto, é preciso reflectir sobre a democracia, sobre modelos de desenvolvimento, sobre as formas de organização política da sociedade, sobre o papel do indivíduo no conjunto orgânico da sociedade, sobre o papel do Estado, sobre o papel dos meios de comunicação. Eu diria que sem uma fenomenologia rigorosa da sociedade moderna não é possível compreender o lugar da esquerda na sociedade.


"... Uma coisa é certa: não é possível repensar a esquerda como se esta fosse uma condição. Sobretudo a condição dos deserdados, mas também dos seus apóstolos..."



"Outra coisa é o esforço analítico de descrição e de explicação dos mecanismos sociais e a tentativa de os aperfeiçoar, melhorando a sua ‘performance’. Por exemplo, que modelo de desenvolvimento terão de adoptar as sociedades modernas para se adaptarem às novas exigências globais e desiguais da competitividade? ... Outra questão, de resto, ligada com esta. As sociedades modernas estão estruturadas em grandes blocos sociais, as ditas classes, ou a sua organização é cada vez mais de tipo superestrutural, uma vez que elas estão fragmentadas, sendo constituídas por indivíduos? ... Terceira questão. O modelo de organização democrática das sociedades não pressupõe precisamente esta desestruturação das sociedades orgânicas e a sua recomposição a partir da soberania individual? ..."


"Quarta questão. Neste contexto, que democracia? A democracia representativa, tal como a temos vindo a viver ainda continua a manter validade plena ou já estamos a evoluir para um novo tipo de organização democrática? Ou seja, mantendo-se como seu fundamento o indivíduo singular, não estão alteradas radicalmente as condições da sua participação na produção da decisão política colectiva? Ou melhor: não se está a verificar uma alteração radical nas formas de expressão política do cidadão quando os partidos políticos cedem cada vez mais terreno aos meios de comunicação, desde a televisão até às suas formas mais avançadas de “comunicação individualizada de massas” (Castells)?"

"Quinta questão. E o Estado, como se comporta perante tal evolução? Não terá de se transformar para responder às novas exigências emergentes? ... Sexta questão. E os partidos políticos, como é que podem responder a estas transformações, garantindo uma efectiva autonomia, capacidade de agenda e relação orgânica com a sociedade ao mesmo tempo que resolvem o bloqueio burocrático interno? ... É confrontando-se com estes temas que se pode responder à pergunta sobre a esquerda."

Sal: nutrição e saúde

Este artigo do Nouvel Observateur, Sel: l'overdose, é exemplar a diversos títulos. Porque precisa as consequências (muito sérias) do consumo do sal para a saúde ; porque esclarece sobre as responsabilidades da indústria alimentar no consumo dissimulado do sal, a que todos somos sujeitos; porque relembra como, aqui também, os interesses económicos privados - enfim, (quase) toda a gente - reagem quando a fonte dos seus proveitos é colocada em causa e, por fim, - o que não sendo inesperado, é sempre curioso de constatar - como esses interesses recorrem a linhas de argumentação, na defesa dos seus interesses, que são similares de um ramo para outro de actividade (e.g., a indústia do tabaco versus limites ao consumo; a indústria petrolífera versus aquecimento global, etc). O artigo deveria ser acedido e lido na totalidade, apesar dos excertos, apresentados abaixo:




"Au temps où les frigos n'existaient pas, où le sel servait encore à conserver viandes et salaisons. «On mangeait beaucoup plus salé qu'aujourd'hui, jusqu'à 30 grammes par jour, et les accidents vasculaires hémorragiques étaient très fréquents», explique Pierre-François Plouin, spécialiste de la pression artérielle à l'hôpital Georges-Pompidou. Après-guerre, l'invention de la chaîne du froid a révolutionné l'alimentation, mais les apports en sel, eux, n'ont presque pas baissé.

Aujourd'hui, les Français absorbent en moyenne 8,5 grammes de sel par jour, soit plus de 3 kilos par an. Le double du seuil recommandé par l'Organisation mondiale de la Santé. La France n'est pas un cas isolé. «Tous les pays sont concernés, c'est une épidémie mondiale !», s'alarme Pierre Meneton. Or ce n'est pas la salière sur la table qui est en cause, mais le sel «caché», celui qu'on ne voit pas mais qui est présent dans tous les plats, même sucrés : les biscuits, les soupes, les conserves, les fonds de sauce, le pain, la charcuterie, les plats préparés, etc. «Au total, ce sel préincorporé représente 80% de notre apport journalier, accuse Laurent Chevallier, médecin nutritionniste au CHU de Montpellier (1). Le hic, c'est que rien n'oblige les industriels à en indiquer la quantité sur les étiquettes des aliments.» Des quantités parfois astronomiques : un paquet de chips représente l'équivalent de trois bols d'eau de mer, une boîte de thon contient dix fois plus de sel que du thon frais, et le pain représente 30% de notre apport sodé journalier (voir encadré) ! Tout cela le plus souvent à l'insu du consommateur.

Pourquoi cette overdose ? Parce que le sel rend de multiples services, souvent inavouables... «En plus d'être un conservateur, il est un exhausteur de goût, explique Laurent Chevallier. Dans l'industrie, il est utilisé massivement pour relever les plats, bien sûr, mais surtout pour en masquer les saveurs ou l'absence de saveurs...»


Autre avantage des cristaux ? L'accoutumance. «Le goût pour le sel n'est pas inné chez le nourrisson, explique Pierre Meneton. Mais l'agroalimentaire crée cette dépendance dès le plus jeune âge en salant les produits pour enfants.» Dans ce contexte, il est aisé de comprendre pourquoi industriels et groupes salins ont la main lourde sur la salière et ne sont guère pressés de suivre les recommandations de l'Afssa (Agence française de Sécurité sanitaire des Aliments) , qui préconise une réduction de 30% de nos apports sodés. «Si on supprimait le sel dans tous les produits alimentaires, les industriels perdraient entre 10% et 12% de leur chiffre d'affaires», estime Pierre Meneton. Mais le plus gros enjeu n'est pas là. Tout le monde le sait : le sel fait boire. Environ un demi-litre de plus par jour et par personne, comme l'a montré récemment une toute nouvelle étude britannique. Une manne pour tous les géants de l'agroalimentaire, de Nestlé à Danone, qui dominent aussi le marché de l'eau minérale et des sodas...


«Nous sommes face à des lobbys redoutablement bien organisés, confie une source à la Direction générale de la Santé. Tous les maillons de la chaîne sont représentés et défendent leurs intérêts âprement.» Un exemple ? Le groupe Solvay-France, membre du CSF et propriétaire des salines de Salin-de-Giraud, possède aussi une chaîne de pharmacie, spécialisée entre autres dans la... cardiologie ! Et ce n'est pas tout : pendant des années, un certain Tilman Drueke, représentant scientifique du CSF, collaborait aussi à l'Afssa, où il était chargé d'évaluer les apports en sodium conseillés pour la population française... Méthode d'attaque des lobbyistes ? Manipuler les médias, acquérir l'appui des politiques, endormir l'opinion. Dans une note confidentielle de PepsiCo, géant américain des boissons, un responsable scientifique explique ainsi sa stratégie pour masquer les risques du sel industriel : «Une campagne efficace pour promouvoir l'effet bénéfique du calcium sur l'hypertension pourra pendant un moment relâcher la pression sur le sel.» Aujourd'hui encore, les salines minimisent toujours les dangers de l'excès de sel. Sur leur site internet, dans une page destinée aux journalistes, il est écrit : «Une hypothèse est désormais contestée, celle d'une relation causale des ingesta sodés (1) avec l'augmentation de la pression artérielle.»
«C'est leur argument favori : affirmer qu'il existe une controverse scientifique sur l'excès de sel, soupire le professeur Michel Desnos, chef du service cardiologie à l'hôpital européen Georges-Pompidou. Certes, l'organisme peut écluser plus de 15 grammes de sel par jour, mais passé un certain âge, le coeur et les reins s'usent et les risques d'hypertension artérielle se multiplient.»
PS: Outro artigo sobre a mesma problemática:
Le goût du pain.